O ex-banqueiro Daniel Vorcaro se reuniu com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 11 de abril de 2024, para pedir apoio a uma causa bilionária de usinas do setor sucroalcooleiro. Gilmar votou contra a tese de Vorcaro nos processos analisados.

O caso foi revelado pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, e confirmado pelo Metrópoles. A votação beneficiaria Vorcaro diretamente, mas a maioria dos processos ainda tramita no STF.

À época do encontro, Vorcaro tinha um contrato de R$ 500 mil mensais com o empresário Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, o Chiquinho Feitosa, então cunhado de Gilmar Mendes.

Em troca, Chiquinho seria lobista em Brasília para o Banco Master na área da educação e teria viabilizado o encontro com o ministro.

"Você tem que começar uma relação direta com ele! É importante para o futuro!", aconselhou Chiquinho a Vorcaro, em mensagem trocada em abril de 2024.

Mesmo derrotado no processo de seu interesse, Vorcaro manteve o contrato com o ex-cunhado do ministro por mais de um ano, segundo as mensagens analisadas pela reportagem.

O Banco Master mantinha bilhões em créditos de precatórios voltados a empresas que perderiam valor caso o STF não reconhecesse a validade de ações indenizatórias movidas contra a União.

Segundo estimativa da Advocacia-Geral da União (AGU), se as usinas vencerem, o valor das causas pode chegar a R$ 145 bilhões.

Vorcaro propôs, por mensagem, entrar sozinho na primeira meia hora da reunião e ser seguido por outras duas pessoas, entre elas o ex-advogado-geral da União Bruno Bianco.

Fizemos um encaixe para o senhor. Ministro não tem todo esse tempo.

A resposta foi da secretária do gabinete de Gilmar Mendes. Vorcaro perguntou quantos minutos teria; ela respondeu "uns 15".

O processo de interesse direto de Vorcaro era o da Destilaria Alcídia S/A. Um mês antes do julgamento, Gilmar Mendes pediu destaque e paralisou a análise do caso.

Procurado pela Folha, Gilmar Mendes afirmou, por meio de assessoria, que nunca tratou de pauta ligada ao Ministério da Educação (MEC) com Vorcaro ou Chiquinho, e que votou a favor do governo, não das universidades, na ação sobre novos cursos de medicina.

Em nota, Chiquinho confirmou o contrato com a Super Empreendimentos, mas negou ter atuado para aproximar Gilmar e Vorcaro. A empresa é investigada pela Polícia Federal por suspeita de servir de canal para pagamentos de Vorcaro a agentes públicos e a uma milícia privada.

"Não fui contratado para promover ou intermediar a aproximação entre quaisquer pessoas, ou muito menos o ministro Gilmar Mendes", disse Chiquinho, em nota.

O que acontece agora

A maioria dos processos de interesse de Vorcaro no STF, incluindo o da Destilaria Alcídia, ainda não foi julgada.

O caso Banco Master já rendeu outra disputa na Corte. Os ministros Mendonça e Fux pediram à PF acesso à íntegra do celular de Vorcaro, apreendido em investigação.

O imbróglio também expõe atrito interno no tribunal. Gilmar chamou Mendonça de "pixuleco eleitoral" na disputa sobre a condução do caso.

Outra frente da crise no tribunal envolve uma decisão de Dino sobre Mendonça, Vorcaro e cemitérios de SP.