Um estudo da consultoria A&M Infra, encomendado pela Associação Brasileira das Empresas de Cabotagem (Abac), projeta que a seca no Norte pode elevar em até 150% o custo do transporte de contêineres para Manaus, dependendo de quanto os rios baixarem neste período de estiagem.

O levantamento traça dois cenários. No moderado, redução de 2 metros no calado derruba a capacidade em 35% e eleva o custo em 63%. No severo, queda de 3,2 metros reduz a capacidade em 55% e pode dobrar e meio o preço do frete.

"Mesmo com a adoção de medidas paliativas, há aumento relevante dos custos", afirmou Luis Resano, diretor executivo da Abac. A seca no Norte em 2026 está ligada ao El Niño que divide o Brasil entre chuva e seca neste ano.

Quem paga essa conta

O Polo Industrial de Manaus depende do transporte fluvial para receber matéria-prima e escoar produção de eletrônicos, eletrodomésticos e motocicletas. Navio grande precisa de calado mínimo; quando falta água, a carga migra para balsas menores, mais lentas e caras por unidade transportada.

Esse custo extra tende a se espalhar pela cadeia: paga primeiro a indústria instalada na Zona Franca, depois o distribuidor, e no fim das contas ele pode chegar ao preço de produtos vendidos em todo o país.

A sobretaxa que a Antaq negocia desde 2025

Existe uma sobretaxa específica para isso, a chamada Taxa de Seca. A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) só autoriza sua cobrança quando o Rio Negro, medido no Porto de Manaus, fica em 17,7 metros ou menos.

As empresas de navegação também precisam dar aviso prévio de 30 dias, com comprovação dos custos extraordinários. A seca já provocou prejuízo maior em anos anteriores: em outubro de 2023, a movimentação de contêineres em Manaus despencou 85% frente a agosto daquele ano.

A Associação Comercial do Amazonas denunciou empresas de navegação por cobrança indevida da taxa em 2025. A área técnica da Antaq chegou a propor considerar essa cobrança irregular, decisão que ainda depende da diretoria colegiada do órgão.

O ponto em aberto

Dragagem com cronograma melhor e píeres flutuantes em Itacoatiara são as soluções que o setor de navegação defende há pelo menos três secas seguidas, sem que tenham saído do papel.

Enquanto isso, cabe à Antaq decidir se as cobranças da Taxa de Seca em anos anteriores foram legítimas, e sob quais regras a próxima poderá ser aplicada.