A Comissão Nacional de Telecomunicações da Venezuela (Conatel) desbloqueou nesta quinta-feira (17) pelo menos 17 sites de notícias censurados há anos no país, entre eles TalCual, El Nacional e NTN24. O anúncio antecedeu uma nova rodada de negociação entre o governo interino e a oposição.
Segundo a Conatel, a medida representa o "restabelecimento formal do acesso" a plataformas e veículos de comunicação digitais nacionais e internacionais. Também voltaram ao ar a agência espanhola EFE e a revista colombiana Semana.
A ONG de direitos digitais VE Sin Filtro confirmou o acesso a 17 portais em vários provedores de internet do país.
O governo venezuelano planeja restaurar o acesso a mais de 200 domínios, dos quais 65 pertencem a veículos de comunicação. Mesmo assim, a VE Sin Filtro ainda registra 188 sites bloqueados no país, entre eles 79 veículos de notícias.
Ou seja, o desbloqueio de sexta-feira alcançou pouco mais de um em cada cinco portais que a ONG classifica como censurados.
Conseguimos resistir, conseguimos inventar e chegamos vivos a este momento
A frase é de Víctor Amaya, diretor do TalCual, site bloqueado desde julho de 2024. Segundo ele, o portal perdeu 60% do tráfego e viu anunciantes se afastarem por medo de punição.
Amaya afirmou que seu site só foi liberado por algumas operadoras de telecomunicações. Em mensagem à reportagem, por WhatsApp, disse esperar que a medida não se repita como em "libertações de presos, em que 100 são anunciadas, mas 60 ou 70 são verificadas".
Por que o bloqueio caiu agora
O desbloqueio chega oito meses depois de uma intervenção dos Estados Unidos que resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro, hoje preso nos EUA sob acusação de narcotráfico em um tribunal de Nova York. Desde então, um governo interino negocia com a oposição venezuelana.
A agenda das negociações inclui a liberdade de expressão, criticada por anos por causa do bloqueio de sites de notícias.
Luis Ernesto Blanco, diretor editorial do Runrunes, também liberado, avaliou que a Conatel reconheceu implicitamente a censura. "Estavam censurados, basicamente porque quis. Não havia uma resolução administrativa, uma ordem judicial que o exigisse", disse.
Para acessar os sites bloqueados, jornalistas e leitores precisavam recorrer a VPN. Nem todos os veículos liberados tiveram acesso estável nesta sexta: o NTN24 chegou a confirmar que estava acessível, mas depois relatou instabilidade.
O que acontece agora
A segunda rodada de negociações entre o governo interino e a oposição venezuelana, marcada para esta sexta, deve tratar da liberdade de expressão e do calendário para liberar os domínios que ainda seguem bloqueados no país.
A Venezuela negocia paralelamente transferir US$ 4 bi em ouro para os EUA, movimento que caminha ao lado da aproximação diplomática com Washington.
Os dois países também fecharam um acordo de 100 anos sobre o petróleo venezuelano. Jornalistas dos veículos de notícia afetados dizem acompanhar o processo de desbloqueio com desconfiança, à espera de que se confirme na prática nos próximos dias.


























