O ministro Gilmar Mendes chamou André Mendonça de desfaçatez durante sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (15), ao defender o procurador-geral, Paulo Gonet, de questionamentos feitos pelo colega. Mendonça reagiu aos gritos e pediu respeito. A sessão discutia se autoriza investigar o ministro Alexandre de Moraes por conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro.

A crise no STF começou em 1º de setembro, quando a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu a anulação de um relatório da Polícia Federal sobre comunicações entre Moraes e Vorcaro, ligadas ao Banco Master.

O documento, segundo o jornal O Tempo, havia sido produzido a pedido do próprio Mendonça, quando ele ainda relatava o inquérito.

Gilmar interrompeu a fala de Mendonça para rebater críticas ao procurador-geral Paulo Gonet, que negou proximidade com Vorcaro dias antes.

"É impressionante que uma pessoa da estatura do Paulo Gonet sofra esse tipo de ilação. Isto sim é leviandade. Um sujeito investido de um sentimento policialesco", disse Gilmar. Completou em seguida: "É impressionante a desfaçatez desse sujeito!"

A desfaçatez de Vossa Excelência! Me respeite!

Foi a reação imediata de Mendonça, aos gritos, à provocação do colega. "Pode chorar", insistiu Gilmar. "Não estou chorando. Aqui não tem choro, não. Respeite", revidou Mendonça.

Diante do clima, o ministro Flávio Dino cobrou o presidente da Corte, Edson Fachin: "Ministro Fachin, se Vossa Excelência, com todo respeito, não tomar uma providência, eu vou pedir vista."

Minutos depois, Dino cumpriu o aviso e pediu vista do processo, suspendendo a análise sobre autorizar a investigação contra Moraes.

A tentativa de reunir os dois julgamentos

A ideia de julgar os dois casos juntos partiu de Moraes. Em ofício enviado no sábado (12), ele pediu que o pedido de investigação contra Mendonça entrasse na mesma sessão desta terça-feira, ao lado do próprio caso.

O pedido de investigação contra Mendonça nasceu dentro da crise. Em 3 de setembro, Moraes pediu que o colega fosse apurado no inquérito das fake news.

Fachin retirou o pedido do inquérito no dia seguinte (4 de setembro), e o caso passou a tramitar em separado, na mesma apuração que o STF vai julgar em 23 de setembro.

Fachin negou o pedido na resposta ao ofício, recusando reunir os julgamentos de Moraes e Mendonça. O presidente do STF argumentou que sessões separadas garantem o "adequado direcionamento dos trabalhos" e que o caso de Mendonça ainda está em fase de instrução.

Foi essa decisão que Gilmar tentou reverter nesta terça-feira, com uma questão de ordem para reunir os dois julgamentos.

Segundo o jornal O Tempo, a votação estava em quatro votos a três a favor de manter os julgamentos separados quando Dino pediu vista e interrompeu a análise.

O que acontece agora

Fica mantida a data de 23 de setembro para o STF julgar o pedido de investigação contra Mendonça. Já a análise sobre autorizar a apuração de Moraes por conversas com Vorcaro segue sem data, parada pelo pedido de vista de Dino.

A crise também pressiona o STF por fora. O Conselho Federal da OAB disse acompanhar o caso com "extrema preocupação" e cobrou apuração "rigorosa e isenta". Seccionais estaduais da entidade foram além e chegaram a pedir o impeachment de Moraes.

Fachin chegou a cancelar um encontro com a OAB sobre o tema. A ministra Cármen Lúcia também reagiu à crise e pediu desculpas à sociedade pelo mal-estar causado pela Corte.

Não é a primeira vez que ministros do STF trocam farpas em público. Em 2009, Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes já haviam confrontado em plenário, e em novembro de 2025 Mendonça discutiu com Dias Toffoli na Segunda Turma.

A crise no STF já entrou no debate eleitoral, embora mova apenas 4% do voto, segundo pesquisa Datafolha.