A líder da oposição venezuelana María Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz, voltou à Venezuela no domingo (25 de outubro) após meses fora do país. Ela afirmou nunca ter falado com Lula e agradeceu a Trump pela captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro.

"Quero agradecer ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump... pela captura de Nicolás Maduro", disse Machado, segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (30 de outubro). Sobre o presidente brasileiro, foi direta: "Nunca falei com o presidente Lula, nunca. Essa é a realidade."

A declaração expõe a distância entre a opositora e o governo brasileiro. Lula tenta equilibrar a condenação à ação militar dos EUA com a manutenção da relação com Washington.

Maduro foi capturado em operação das forças americanas em 3 de janeiro deste ano, junto com a mulher, Cilia Flores.

Machado vinha enfrentando dificuldades para retornar ao país desde que deixou a Venezuela, em dezembro de 2025, com apoio dos Estados Unidos. Ela viajou de forma clandestina à Noruega para receber o Nobel e passou meses escondida desde as eleições de 2024.

Lula criticou publicamente a captura de Maduro, chamando a ação dos EUA de linha inaceitável contra a estabilidade regional. Segundo o presidente, se Maduro for julgado, o julgamento deve ocorrer na própria Venezuela, não no exterior.

A posição busca condenar o método sem romper de vez com o governo americano, numa articulação que o Planalto trata como a mais delicada do início do mandato.

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O vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a administração interina venezuelana, instalada pelo Tribunal Supremo de Justiça do país, que classificou a situação de Maduro como "ausência temporária". O novo governo abriu o setor petrolífero a empresas dos EUA.

A crise deslocou a agenda do governo brasileiro já no início do ano. Em análise publicada em janeiro, a CNN Brasil mostrou que o episódio tirou o foco de prioridades internas, como a PEC da Segurança Pública e o PL Antifacção.

O Planalto passou a priorizar o risco de a crise extrapolar a fronteira com o Brasil, e as incertezas sobre os próximos passos do governo Trump.

Trump, por sua vez, tem dito publicamente que Machado "não tem apoio interno nem respeito" para liderar o país. A fala se soma a outro atrito recente, quando a opositora acusou um aliado do presidente americano de corrupção na Venezuela.

O episódio já teve desdobramento direto em solo brasileiro: um avião ligado à operação de captura de Maduro alimentou fake news sobre um suposto golpe no Brasil.

O que acontece agora

Machado afirma que os Estados Unidos propuseram eleições presidenciais na Venezuela em 2027, mas não há data oficial confirmada pelo governo interino. O Itamaraty segue defendendo o respeito ao direito internacional e à soberania latino-americana como linha para os próximos passos.

A estratégia americana de mirar Maduro na Justiça enquanto corteja quem o sucede deve seguir pautando a relação entre Brasília, Caracas e Washington nas próximas semanas.

O ponto em aberto

O retorno de Machado reabre uma pergunta que o Brasil ainda não respondeu publicamente. Como manter a defesa da soberania venezuelana sem se alinhar nem ao governo interino apoiado pelos EUA, nem à opositora que hoje agradece a Washington e ignora o Planalto?

Enquanto isso não se resolve, a diplomacia brasileira segue tratando o caso pela via mais cautelosa possível.