O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, afirmou à Polícia Federal que o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), pediu, em 2024, que ele estruturasse a venda do banco distrital ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.

O depoimento foi dado em 15 de outubro.

Segundo Costa, o pedido foi feito durante um jantar na casa de Vorcaro, em 24 de setembro de 2024, com a presença de Ibaneis e outras quatro pessoas.

Segundo o relato de Costa, o diálogo começou com Ibaneis apresentando Vorcaro durante o jantar; Costa respondeu que já conhecia o banqueiro, de cessões de crédito anteriores. Na sequência, o governador foi direto: "Paulo, estruture uma venda do BRB para o Master".

Costa afirmou ter ficado surpreso com o pedido, porque até então defendia a manutenção do controle público do banco. Ele disse ter enviado mensagens a Ibaneis e a Vorcaro na manhã seguinte, às 7h30.

Ao governador, segundo relatou, escreveu: "Estou dando andamento à operação que o senhor me pediu (pediu é uma forma delicada de dizer), mas tem aspectos que eu queria discutir".

A principal preocupação de Costa era o que seu advogado chamou de uma "privatização disfarçada" do BRB. Para o ex-presidente do banco, a proposta equivalia, na prática, a uma venda disfarçada de instituição pública.

Publicidade

A operação incluía a venda da participação do Instituto de Previdência dos Servidores do DF (Iprev-DF) no banco.

Costa foi preso na 4ª fase da Operação Compliance Zero, que apura fraude ligada ao Banco Master, sob suspeita de ter recebido 6 imóveis avaliados em R$ 146 milhões como propina de Vorcaro. À PF, ele negou ter recebido os apartamentos.

Segundo Costa, os imóveis seriam para sua moradia caso aceitasse o convite de Vorcaro para presidir uma nova holding financeira do grupo Master. Antes de responder, ele consultou Ibaneis, com quem tinha o compromisso de permanecer no BRB até o fim do mandato.

O que a investigação já apurou sobre o esquema?

A PF aponta repasse de R$ 2,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes ao BRB, originadas pela Tirreno Consultoria, classificada pela PF como empresa de fachada. O caso é hoje parte de uma fraude total estimada em R$ 12,2 bilhões no Banco Master.

Vorcaro e mais 14 pessoas foram indiciados pela fraude na quarta-feira (28 de outubro).

Vorcaro está preso preventivamente desde março. Em depoimento à PF, negou fraude e provocou a delegada responsável pelo caso: "Eu fiz isso? A senhora tem prova?".

É a segunda vez que Vorcaro fala à PF sobre o repasse de R$ 16,7 bilhões do BRB ao Master, caso em que a própria PF já havia apontado que ele pagou propina ao ex-presidente do banco distrital.

Vorcaro contesta o rombo apontado pela PF e pede uma perícia independente para provar que os ativos entregues ao BRB em substituição valem mais do que o desembolsado.

O depoimento de Costa foi enviado ao Supremo Tribunal Federal nesta quinta-feira (29 de outubro), junto com o de Vorcaro. O STF ainda não decidiu sobre o pedido de soltura do banqueiro.