O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deflagrou, na quarta-feira (4 de novembro), a Operação Merovingian contra um grupo suspeito de usar inteligência artificial para clonar a imagem e a voz do médico Drauzio Varella e vender suplementos sem aprovação da Anvisa.

Segundo o MP-SP, o grupo também vendia mentorias que ensinavam a criar propagandas falsas no Instagram e no Facebook. A investigação é conduzida pelo CyberGAECO, núcleo especializado em crimes na internet, com apoio do Ministério Público do Rio de Janeiro.

O médico Drauzio Varella é entrevistado no palco de um evento
O médico Drauzio Varella durante entrevista. Foto: Mtvdanilo/Wikimedia Commons

A investigação começou a partir de uma representação apresentada pelo próprio Drauzio Varella.

Segundo o MP-SP, os produtos vendidos no esquema eram suplementos e substâncias medicinais sem registro na Anvisa, anunciados com promessa de resultados milagrosos. É o tipo de propaganda que a agência proíbe por induzir o consumidor a abandonar tratamento médico real.

Em outubro, a 6ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) havia elevado, por unanimidade, a indenização devida a Varella de R$ 10 mil para R$ 70 mil, sete vezes o valor original.

Para o relator, desembargador Ramon Mateo Júnior, ficou "amplamente demonstrado" o uso deliberado da imagem e da voz sintetizada do médico. Ele destacou o risco à saúde pública e o lucro obtido com o ensino da prática.

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Drauzio Varella não é o único alvo. Golpistas também usaram deepfakes do apresentador Marcos Mion e de Luciano Huck para vender produtos com a imagem de rostos conhecidos.

A credibilidade de décadas de carreira médica virou matéria-prima para vender produto de eficácia duvidosa. Um anúncio identificado por checadores prometia emagrecer 5 kg em poucos dias, sem academia, sem dieta, sem jejum e sem remédio.

Como funciona o golpe

O esquema juntava duas frentes. Vídeos com voz e rosto clonados por IA davam credibilidade a suplementos sem registro na Anvisa, enquanto cursos pagos ensinavam outros golpistas a reproduzir o mesmo modelo em anúncios no Instagram e no Facebook.

O mecanismo usado contra Varella segue uma tendência mais ampla. Golpes com voz clonada por IA e o golpe do sósia digital já miram bancos e consumidores em outros setores. Consultorias como a Gartner apontam os deepfakes entre as principais ameaças às empresas.

O ponto em aberto

A pena cível já chegou. A indenização a Varella subiu sete vezes em poucas semanas. Falta saber se a Operação Merovingian vai responsabilizar, na esfera penal, quem lucrou com o esquema e quem pagou para aprender a repeti-lo em outros produtos e outros rostos.