Segundo apuração da BBC News Brasil, um número de telefone salvo no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, preso na Operação Compliance Zero, é a chave Pix do escritório de advocacia da mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes. A Polícia Federal liberou o relatório com o achado em 1º de setembro, por decisão do ministro André Mendonça.

A reportagem identificou que o número está salvo no aparelho de Vorcaro sob três nomes: "Alexandre de Moraes BRASILIA", "STF TSE NOVO" e "Eu STF". A Polícia Federal já havia levantado o relatório sem valor de prova, mas a BBC foi além.

A reportagem encontrou o mesmo número associado a um perfil no TikTok chamado "Xandao", criado em 2024, com 3 seguidores e seguindo apenas o perfil de uma das filhas do ministro.

Em nota divulgada em 6 de março, o STF afirmou que os contatos "não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos". Já o presidente da CPMI do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG), reagiu ao relatório da PF em comunicado:

"Agora, diante das novas informações reveladas pela Polícia Federal e das verificações independentes relatadas pela BBC News Brasil, essa pergunta se tornou ainda mais importante."

O contrato de R$ 131 milhões

O número também é o canal de cobrança de pagamentos do contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, assinado em 23 de janeiro de 2024.

O contrato previa parcelas mensais de R$ 3,42 milhões ao longo de três anos. Em mensagens a funcionários, Vorcaro cobrava o pagamento em tom direto: "esse Barci de Moraes por favor não deixe atrasar um dia" e "pode pagar sempre, sem nota".

O escritório afirma, em nota, que foi consultado pelo banco apenas para checagem de conflito de interesse e que o ministro "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master". A PF apurou que metadados do contrato indicam edição por usuário identificado como Moraes.

O telefone salvo com o nome do ministro foi ativado em 22 de fevereiro de 2017. A data coincide com a aprovação de seu nome pelo Senado para o STF.

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A apuração tem um limite real. Só foram recuperadas as mensagens enviadas por Vorcaro, cujo celular foi apreendido. Não há acesso ao que a outra parte respondeu, o que impede confirmar quem operava o número do outro lado.

O que acontece agora

O caso corre em duas frentes. No Congresso, a CPMI do INSS já havia pedido em março, por meio do Sittel, o histórico de uso do número nos últimos cinco anos, sem resposta pública do STF até agora.

No Supremo, o ministro Edson Fachin abriu petição cobrando explicações de Mendonça e do procurador-geral Paulo Gonet — disputa que ainda não tem data para ser resolvida em plenário, e que já levou Alcolumbre a ameaçar impeachment cruzado entre os dois ministros.