O governo dos Estados Unidos avança sobre o controle de mais de 65 bilhões de barris das reservas de petróleo da Venezuela, com acordo que garante 35% de participação em 17 campos petrolíferos por até 100 anos. A medida corta o acesso da China, credora de bilhões em empréstimos ao país, à nova produção.
O acordo foi fechado com a North American Blue Energy Partners, peça central da ofensiva de Donald Trump sobre o petróleo venezuelano. Segundo o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, "Pequim não terá quaisquer direitos sobre a receita da nova produção venezuelana".
Trump e o chinês Xi Jinping devem discutir o impasse pessoalmente em setembro. Em nota, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, respondeu que "a cooperação entre a China e a Venezuela é protegida pelo direito internacional".
A disputa tem raiz na dívida que a Venezuela acumulou com bancos chineses desde 2007, com pico de US$ 60 bilhões emprestados até 2015. O país deu calote soberano em 2017, e os EUA sancionaram seu setor petrolífero dois anos depois.
Em 2025, sob a política de Trump, nenhum carregamento venezuelano chegou à China. Para o analista Michal Meidan, do Oxford Institute for Energy Studies, o novo arranjo "torna menos provável que a dívida seja paga tão cedo".
Não é a primeira vez que um choque geopolítico no petróleo mexe com o mercado brasileiro. Em setembro, a Petrobras já havia disparado 4% na Bolsa após um ataque dos EUA ao Irã.
O que isso muda para o Brasil
O avanço americano sobre a Venezuela reacende a disputa por um recurso mais escasso que o petróleo em si, o capital disposto a financiar nova exploração. Não é o tamanho da reserva que atrai o investidor, é a competitividade do projeto.
"O Brasil tem que se preocupar em ser cada vez mais competitivo para continuar a investir na exploração de novas reservas", afirma Rivaldo Moreira, sócio-diretor da consultoria A&M Infra.
A Venezuela concentra 17% das reservas provadas de petróleo do mundo, mas produziu apenas 0,8% do total global em 2023, com 742 mil barris por dia.
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Seriam necessários US$ 180 bilhões para o país voltar aos 3 milhões de barris diários que produzia nos anos 1970 — hoje, vende com desconto de US$ 11 a 12 por barril abaixo da referência internacional.
Raphael Faucz, da Rystad Energy, discorda do ceticismo e calcula que a Venezuela poderia ampliar a produção em 40% já em 2027, o que "torna a competição por investimentos e disponibilidade na cadeia de fornecimento mais acirrada".
Já Vasquez, da consultoria Argus, é mais direto: "não há perspectiva realista de aumento imediato da produção venezuelana". Moreira concorda: "há muita reserva já descoberta e parada na Venezuela, não tem muito o que pesquisar".
A disputa chega enquanto o Brasil corre atrás de capital para sua própria fronteira. A Petrobras aposta R$ 13 bilhões na Margem Equatorial para compensar o declínio do pré-sal.
O Ibama autorizou nesta semana mais três poços na Foz do Amazonas, na mesma região. Trump já havia mexido antes com a economia brasileira. Em agosto, o mesmo governo derrubou em 9,7% as exportações do Brasil aos EUA com o tarifaço.
O que acontece agora
A China mantém a importação de 430 mil barris diários de petróleo venezuelano por refinarias independentes, driblando as sanções dos EUA. Os EUA importam só 120 mil barris, via a Chevron. Não há data fechada para o encontro Trump-Xi.


























