O ministro Kássio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), se declarou suspeito e deixou a sessão que discute investigar o colega Alexandre de Moraes nesta terça-feira (15). A decisão veio depois que mensagens do celular do banqueiro Daniel Vorcaro citaram R$ 500 mil ligados a Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro.

A sessão extraordinária, convocada pelo presidente do STF, Edson Fachin, julga a Petição 16.662, que decide se a Corte autoriza investigação contra Moraes a partir de relatório da Polícia Federal.

O documento reúne 52 mensagens que Vorcaro enviou a Moraes no fim de 2025 e aponta edições do ministro em contrato de R$ 130 milhões com o escritório da esposa, Viviane Barci de Moraes.

Os R$ 500 mil citados nas mensagens

As mensagens citam R$ 500 mil ao lado do nome e do contato de Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro. O ex-diretor jurídico do Banco Master, Luiz Rennó, tratou o valor com Vorcaro em julho de 2025 e confirmou o pagamento em agosto.

Rennó perguntou a Vorcaro, em 4 de julho, se o valor mensal seria mantido. Em 8 de agosto, avisou que o pagamento já tinha sido feito.

Kevin Marques tinha 25 anos e dois anos de advocacia. No período, fechou também um contrato de R$ 281,6 mil com a Consult Inteligência Tributária, que recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master.

A defesa de Kevin afirma que ele não prestou serviço ao banco nem recebeu dinheiro de Vorcaro, e que os R$ 281,6 mil vieram só da Consult. Nunes Marques disse que o filho nunca trabalhou para o Master e não revisou as mensagens.

Nunes Marques preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a 19 dias da eleição de outubro. Ele avaliou que participar do julgamento no STF poderia comprometer sua imparcialidade para decidir, na Justiça Eleitoral, casos ligados aos desdobramentos políticos da crise.

Dias Toffoli também se declarou suspeito, por foro íntimo. Com as duas ausências, a impossibilidade de Moraes votar sobre si e uma vaga aberta na Corte, a sessão começou às 10h com número reduzido de votantes.

O outro lado no plenário

A Procuradoria-Geral da República (PGR) questionou a validade do próprio relatório que originou o julgamento. Para a PGR, André Mendonça, o ministro que conduziu o levantamento, não deveria ter agido de forma independente nessa fase.

Não se julgam pessoas; julgam-se fatos e questões jurídicas. Não se antecipa o mérito antes de resolvida a validade processual. A divergência é legítima; o confronto pessoal não.

A frase é do presidente do STF, Edson Fachin, na abertura da sessão. Fachin marcou julgamento separado, para 23 de setembro, sobre a própria investigação contra Mendonça, alvo de acusações de abuso de autoridade neste caso.

Na esfera política, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, pré-candidato à Presidência, voltou a pedir o afastamento imediato de Moraes. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, sem citar nomes, questionou se o Brasil seguiria sendo uma "republiqueta de bananas".

Os dois pedidos ecoam a comissão que a OAB criou para avaliar o impeachment de Moraes.

O que acontece agora

O julgamento sobre investigar Moraes prossegue nesta terça com número reduzido de votantes, sob esquema de segurança reforçado no STF. Em 23 de setembro, a Corte julga separadamente a investigação contra Mendonça, e o desfecho de hoje deve moldar o clima daquela sessão.

O Supremo chegou a blindar a sessão com drones e celular lacrado nesta terça.

O relatório da PF que embasa o caso já havia sido chamado por Moraes de 'nulo e imprestável'.