A edição 2026 da pesquisa anual do Stack Overflow, com 30 mil desenvolvedores de 169 países, mostra um contraste: o uso de IA bateu recorde, mas a confiança no que ela entrega caiu. O levantamento foi compartilhado com exclusividade à CNN antes da publicação.
Hoje, 84% dos respondentes usam ou planejam usar ferramentas de IA no trabalho, ante 76% um ano antes. Apesar disso, 60% dizem evitar o uso da tecnologia sempre que podem, e 65% usam assistentes de codificação apenas quando a tarefa exige.
A confiança no que a IA produz caiu de 40% em 2024 para 29% em 2026. Hoje, mais desenvolvedores desconfiam ativamente da precisão da IA (46%) do que confiam nela (33%), e só 3% relatam alto nível de confiança.
A queixa mais citada, por 66% dos respondentes, é que o código gerado fica “quase certo, mas não exatamente”: parece correto, erra com aparência de acerto, e sai caro para corrigir depois que o erro já está embutido no sistema.
Isso aparece também no tempo de trabalho: 45% dizem que depurar código gerado por IA hoje leva mais tempo do que escrever o equivalente à mão, o oposto do que a promessa de produtividade da tecnologia sugere.
Quem confia menos na ferramenta
Quem confia menos na IA não são os novatos, e sim quem tem mais tempo de profissão. Desenvolvedores veteranos têm a menor taxa de “alta confiança” (2,6%) e a maior taxa de “forte desconfiança” (20%) entre todos os grupos da pesquisa.
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A exigência sobre os profissionais também mudou: espera-se que iniciantes já atuem como se tivessem três anos de experiência, porque o uso de IA elevou o nível mínimo de entrega no mercado. A régua subiu para todo mundo.
O desgaste também aparece fora do expediente. 43% dos desenvolvedores continuam usando IA para codar depois do horário de trabalho mesmo pretendendo parar, e 32% já adiaram o sono para seguir na tarefa.
A ferramenta que prometia liberar tempo está, para boa parte desses profissionais, dificultando desligar do trabalho: 39% dizem que a IA tornou mais difícil parar de pensar no código depois do expediente.
No Brasil, a cautela convive com a expansão do uso: o Serpro ampliou de forma recente o teste de IA para gerar código entre 250 desenvolvedores do serviço público federal.
A tensão entre adotar a ferramenta e desconfiar dela também apareceu antes em levantamentos sobre o próprio uso do chamado “vibe coding”: especialistas já apontavam riscos de segurança nesse tipo de programação assistida por IA.
O ponto em aberto
A pesquisa mostra uma dinâmica que ainda não tem solução à vista: quanto mais a indústria empurra a adoção da IA, mais os profissionais mais experientes relatam desconfiança no resultado prático dela.
A diferença de postura entre veteranos e iniciantes lembra outro debate recente do mercado de tecnologia: o home office também tem beneficiado mais quem já tem experiência do que quem está começando.
Fica a pergunta sobre quem paga o custo de aprender a lidar com a nova ferramenta: times com veteranos céticos, ou a geração que entra no mercado já sob a régua mais alta que a IA impôs.





























