Os eleitores da província canadense de Alberta rejeitaram, nesta terça-feira (20), a separação do país em referendo realizado um dia antes. Resultados preliminares da Elections Alberta davam 76% dos votos pela permanência no Canadá contra 24% pelo início de um processo de separação.

A votação não perguntava diretamente se Alberta deveria se tornar independente. A cédula questionava se a província devia permanecer no Canadá ou se o governo local devia iniciar o processo legal, previsto na Constituição canadense, para um futuro referendo vinculativo sobre a separação.

Até a 1h local, a contagem registrava 1.005.641 votos pela permanência contra 310.672 pelo início do processo separatista, de um total de 1.316.313 votos, segundo a Elections Alberta. O resultado oficial só é anunciado em 29 de outubro.

A premiê de Alberta, Danielle Smith, comemorou o resultado e atribuiu a vitória à união provincial. "Os habitantes de Alberta votaram por uma Alberta mais forte dentro de um Canadá unido", escreveu em rede social.

Smith convocou o referendo sob pressão de separatistas dentro do seu próprio partido, o governista Partido Conservador Unido, apesar de se declarar contrária à independência.

Nós somos um país sólido, unido de costa a costa a costa.

A frase é do ex-vice-primeiro-ministro de Alberta Thomas Lukaszuk, que liderou a campanha Forever Canadian contra a separação. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, também celebrou o resultado.

"O Canadá é muito maior do que a soma das suas partes. Agora é a nossa oportunidade de aproveitar tudo o que nos foi dado como canadianos e tornar o nosso país melhor para todos nós", disse Carney.

Por que o referendo aconteceu agora

O referendo só foi possível porque o governo de Smith mudou a lei eleitoral em julho de 2025. Antes, uma consulta popular exigia assinaturas de 20% dos eleitores registrados, o equivalente a cerca de 294 mil nomes.

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A nova regra reduziu o piso para 10% dos votos da eleição provincial anterior, 177.732 assinaturas, e ampliou o prazo de coleta de 90 para 120 dias. Foi essa mudança que deu aos grupos separatistas o fôlego para levar a proposta às urnas.

Alberta concentra a quarta maior reserva comprovada de petróleo do mundo. A província é tida como o reduto mais conservador do país, com afinidade cultural maior ao oeste dos Estados Unidos do que ao restante do Canadá.

O ressentimento com o governo federal em Ottawa é antigo.

O que pesa a retórica de Trump

A disputa em Alberta corre em paralelo à guerra comercial entre Canadá e Estados Unidos. O presidente americano, Donald Trump, voltou a dizer em comício no Arizona que o Canadá vai "acabar sendo o 51º estado, porque é a única forma de funcionar".

Trump não declarou apoio público à unidade canadense antes da votação.

O embaixador dos EUA no Canadá, Pete Hoekstra, chegou a dizer que uma Alberta independente seria "uma ótima discussão" para Trump e Carney terem. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, chamou a província de "parceira natural dos EUA".

É o mesmo padrão de retórica que Trump já usou sobre a anexação da Groenlândia, território que também cobiça por suas reservas minerais.

O embate entre Carney e Trump já havia escalado desde setembro, com o Canadá anunciando retaliação tarifária. A mesma guerra comercial atinge o Brasil: em agosto, os EUA aplicaram ao Canadá a mesma tarifa de 50% que incide sobre produtos brasileiros.

O que acontece agora

Smith já afirmou publicamente que não vai convocar um segundo referendo de separação enquanto for premiê, caso o resultado final confirme a permanência no Canadá.

Mesmo assim, líderes do movimento separatista dizem ter transformado uma causa até então marginal em um movimento político organizado, que não deve desaparecer com a derrota nas urnas.