O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, abandonou o tom conciliador de 18 meses com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e passou a retaliar as tarifas americanas. O Canadá vai taxar cerca de 700 produtos dos EUA a partir de 8 de setembro.

A retaliação responde a novas tarifas de 50% impostas por Washington.

Em maio de 2025, quando Trump ameaçou transformar o Canadá no 51º estado americano, Carney respondeu com uma piada sobre imóveis que não estão à venda. Os dois riram juntos no Salão Oval.

"Como você sabe por experiência no mercado imobiliário, há lugares que nunca estão à venda", disse Carney na ocasião, arrancando risos de Trump.

Na sexta-feira, em discurso para o Partido Liberal em Ottawa, Carney imitou o gesto de mãos "estilo acordeão" de Trump ao anunciar um acordo de energia limpa. Ele chamou o pacto de "equivalente funcional de 18 represas Hoover".

Carney repetiu a frase com um sorriso, provocando gargalhadas na plateia.

Por que Carney mudou de postura

A mudança reflete o colapso das negociações comerciais com os Estados Unidos em agosto e a paralisação do diálogo bilateral desde então, enquanto o Canadá aprofunda uma nova aliança comercial com a União Europeia.

Carney anunciou que vai igualar as tarifas de 50% dos EUA "dólar por dólar". O secretário de Comércio americano, Howard Lutnick, acusou Ottawa de sabotar as negociações por motivos políticos, e Carney rebateu a acusação publicamente.

O Canadá vai aplicar tarifas sobre 700 produtos americanos a partir de 8 de setembro. A postura mais dura rendeu dividendos políticos a Carney: sua aprovação subiu 3 pontos, para 60% na mesma semana.

Pesquisa da época mostrou que a maioria dos canadenses queria uma linha mais firme com os EUA — o que ajuda a explicar a guinada do premiê.

O padrão que também atingiu o Brasil

Trump usou a mesma arma tarifária contra outros países, incluindo o Brasil, que chegou a enfrentar uma ameaça tarifária ligada à política latino-americana de Trump e uma tarifa de 50% imposta em 2025 sob justificativa ligada ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou o tarifaço ao Brasil por entender que Trump extrapolou sua autoridade ao aplicar tarifas sem aval do Congresso.

Hoje vigora uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, com exceção de carnes, café e minérios. O governo brasileiro recorreu à Organização Mundial do Comércio, e o próprio Canadá já havia sido alvo de uma suspensão temporária de tarifa parecida antes da atual escalada.

Diferente do Canadá, o Brasil ainda não retaliou: Brasília e Washington chegaram a marcar uma reunião para discutir o tarifaço, sem data de acordo definida até agora.

O que acontece agora

As tarifas retaliatórias canadenses entram em vigor em 8 de setembro. Trump e Carney não retomaram as negociações comerciais desde o colapso do diálogo em agosto, e não há data marcada para uma nova rodada.