A Bolsa brasileira fechou em queda pela quarta sessão seguida nesta quinta-feira (29 de outubro), no menor nível desde agosto. Temor fiscal, fuga de capital e expectativa pelo balanço da Vale pressionam o Ibovespa desde a reeleição de Lula.

Os estrangeiros retiraram R$ 2,85 bilhões da Bolsa em um único pregão depois do resultado do 2º turno. O saldo de outubro, que chegou a R$ 16,2 bilhões, caiu para R$ 13,3 bilhões em poucos dias.

A fuga de um único dia equivale a quase um quinto do que saiu da Bolsa em todo o mês de agosto.

O que explica a queda, segundo o mercado

Analistas apontam dois motivos centrais: desconfiança com a política fiscal do próximo mandato de Lula, que começa em 2027, e a expectativa pelo balanço da mineradora Vale, divulgado nesta quinta após o fechamento do pregão.

O déficit primário de 2026 é projetado em R$ 53 bilhões pelo Prisma Fiscal, boletim do Ministério da Fazenda com projeções de instituições financeiras. A meta oficial do governo é um superávit de 0,25% do PIB.

A Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado, calcula que seria necessário um superávit de 2,1% do PIB para estabilizar a dívida pública, que já bate 82,5% do PIB, o maior nível em cinco anos.

A Vale pesa mais que qualquer outra ação no Ibovespa: sozinha, representa 11,4% do índice. O mercado já esperava lucro líquido 41% menor do que no mesmo trimestre de 2025.

É a continuação de uma tendência de queda que já aparecia no resultado do 2º trimestre da mineradora.

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Para o analista Kevin Oliveira, da Blue3, o desconforto vem da falta de prioridade fiscal do governo.

"O governo não está tratando os gastos com prioridade, mas só pensando em aumentar receitas, via IOF, por exemplo. Isso traz um sentimento ruim", disse.

Eduardo Gonçalves, da Aurum Wealth Management, aponta na mesma direção. "A principal questão é que não vemos nenhuma medida concreta do governo para controlar os gastos públicos", afirmou.

Já Sérgio Samuel dos Santos, do Sistema Ailos, resume o momento: "Há um grau de incerteza elevado. Incerteza é a palavra do momento."

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, prometeu ao Congresso um pacote de medidas para buscar o centro da meta fiscal. É a resposta do governo à pressão que o mercado vem fazendo por clareza fiscal.

A combinação de dólar mais caro e juros futuros em alta favorece exportadores e bancos. Do outro lado, perdem os importadores, o consumidor que paga mais caro em produtos dolarizados e quem tem recursos em renda variável.

O dólar fechou a quinta-feira cotado perto de R$ 5,36, em alta de 0,41% no dia.

O ponto em aberto

Em agosto, a Bolsa também emendou uma sequência de perdas em meio à turbulência do pacote fiscal daquele mês, e o padrão se repete agora. O pacote que Durigan prometeu ao Congresso ainda não tem data nem conteúdo detalhado.

Até lá, o mercado trata o risco fiscal como estrutural, não como evento passageiro. A pergunta que fica é se a promessa muda essa leitura antes que o custo de financiar a dívida pública suba ainda mais.