O alemão Stefan Lippmann, radicado no Brasil desde os 11 anos, celebrou o bar mitzvah aos 91 anos, quase oito décadas depois da idade tradicional de 13. A cerimônia aconteceu em 15 de outubro, no Memorial do Holocausto, em São Paulo.
Nascido em 1935 na cidade alemã de Plauen, Lippmann tinha 3 anos quando viveu a Noite dos Cristais, em novembro de 1938: civis invadiram a casa da família e destruíram tudo. Depois do episódio, a família deixou a Alemanha.
Na Bélgica, precisou adotar um nome falso e se esconder em um convento católico. Chegou a cogitar a conversão ao catolicismo, mas o padre local o aconselhou a esperar antes de decidir.
O fato é que precisei me esconder porque era judeu. Só que eu não tinha a menor ideia do que significava ser judeu.
contou Lippmann à Folha, em seu apartamento.
Lippmann chegou ao Brasil aos 11 anos, depois de ser expulso da Bélgica. Impedido de aprender hebraico na infância, só conseguiu celebrar o bar mitzvah quase oito décadas depois, no Memorial do Holocausto.
"Acho que, de certa forma, recuperei algo que havia perdido. Foi uma reconexão com as minhas raízes", disse Lippmann sobre a cerimônia.
O alerta sobre a extrema direita
Lippmann diz acompanhar com preocupação o avanço da extrema direita na Alemanha, o mesmo país que o perseguiu quando criança. O partido AfD (Alternativa para a Alemanha) dobrou de votos em cinco anos e venceu eleições regionais no país.
Publicidade
Quase 90 anos depois de ser perseguido por ser judeu, Lippmann voltou a praticar a fé às claras no mesmo momento em que vê a extrema direita avançar outra vez na Alemanha.
O partido tem integrantes investigados por neonazismo e vem disputando espaço entre a esquerda alemã e o governo de Friedrich Merz. O avanço reacende, no país, o temor histórico de repetir as divisões que abriram caminho ao nazismo na República de Weimar.
Para Lippmann, a trajetória pessoal e o cenário político atual se conectam. Ele viveu na pele o que a ascensão da intolerância pode custar a uma família.































