O ICMS do diesel sobe 11,1% a partir de 1º de fevereiro de 2027, por decisão unânime do Confaz. O aumento provocou troca de acusações entre o ministro Guilherme Boulos e o governador Tarcísio de Freitas, que chamou a crítica do ministro de "lamentável".

A divergência aconteceu no domingo (1º de novembro). Boulos publicou vídeo no Instagram responsabilizando o governador pelo reajuste; o Palácio dos Bandeirantes respondeu horas depois, classificando a fala do ministro de distorção dos fatos.

Tarcísio de Freitas em evento público no interior de São Paulo
Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, em evento oficial no estado (foto de arquivo) Foto: João Valério/Governo do Estado de São Paulo (CC BY 4.0)

Segundo o Valor, o valor fixo do ICMS sobre o diesel passa de R$ 1,17 para R$ 1,30 por litro, alta de R$ 0,13.

A gasolina sobe 4,5%, para R$ 1,64 por litro. O gás de cozinha sobe 4,8%, para R$ 1,54 por quilo. O diesel teve o maior reajuste entre os três combustíveis.

A decisão saiu da 433ª Reunião Extraordinária do Confaz, colegiado dos secretários de Fazenda dos 26 estados e do DF, pelos Convênios ICMS 127/2026 e 128/2026. A ratificação foi unânime, inclusive por estados do PT, segundo nota do Palácio dos Bandeirantes ao Metrópoles.

Boulos criticou o reajuste em vídeo publicado no Instagram. "Governador Tarcísio, faça a sua parte, ajude o povo brasileiro. Não dá pra ter um discurso na eleição e a prática é ser outra, né Tarcísio?", disse o ministro.

O governo paulista rebateu em nota: "Divergências não justificam distorcer os fatos para atacar adversários". A cobrança sobre combustíveis, diz o texto, segue a mesma regra nacional em São Paulo, no Piauí, no Ceará e na Bahia.

Boulos voltou a publicar, no X: "Isso não muda nada em relação à incoerência de Tarcísio com seu discurso de campanha. Passou meses atacando Lula a respeito de impostos. E três dias depois da eleição, se posicionou a favor do aumento do ICMS no Confaz."

O embate reedita uma disputa que já havia aparecido na campanha, quando Tarcísio criticou um ato do PT na Paulista e Boulos rebateu em vídeo.

Por que o reajuste não depende de um governador

O ICMS sobre combustíveis não é cobrado em percentual, como na maioria das mercadorias. Desde a Lei Complementar 192/2022, ele é fixado em valor por litro ou quilo, com correção anual obrigatória prevista em lei.

Por isso o reajuste não nasce de decisão isolada de um governo estadual. É um mecanismo automático, acionado todo ano pelo colegiado dos 26 estados e do Distrito Federal.

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Em nota, o Comsefaz, comitê que reúne os secretários de Fazenda estaduais, justificou o novo valor: "Em razão do cenário de instabilidade mundial dos preços dos derivados de petróleo, os estados buscam formas de reduzir o montante da atualização para o diesel."

A entidade não detalhou quais seriam essas formas.

O cálculo de 2027 comparou os preços médios do diesel entre fevereiro e setembro de 2026 com o mesmo período de 2025. É o terceiro ano seguido de reajuste do ICMS sobre combustíveis, depois da alta já aplicada em janeiro de 2026.

O ICMS também não é a maior fatia do preço na bomba. A parcela da Petrobras na refinaria responde por cerca de 39% do valor final do diesel, contra 17% a 19% do ICMS estadual.

O restante se divide entre distribuição e revenda, cerca de 29%, e tributos federais como PIS/Cofins, de 4,5%. É essa divisão entre esferas que sustenta a disputa. O Planalto age sobre a parte da Petrobras; o Confaz, sobre o ICMS.

Foi nesse ponto que Boulos amarrou a crítica ao esforço do governo Lula para conter o preço do diesel. Em julho, a Câmara aprovou uma MP de R$ 10 bilhões para subsidiar o combustível.

Em setembro, o governo federal já havia gasto R$ 6,6 bilhões para conter o preço na bomba.

Quem sente o aumento no frete

Para o setor de transporte, o diesel não é item marginal. Segundo a CNT (Confederação Nacional do Transporte), o combustível representa cerca de 35% do custo operacional de uma transportadora.

A entidade defende que o reajuste do ICMS seja repassado ao frete e ao preço final de produtos como os alimentos citados por Boulos. A CNT estima que a alta de 11,1% no imposto pode elevar em cerca de 4% o custo do frete rodoviário.

Esse não é o primeiro ciclo em que o ICMS do diesel aparece numa crise de abastecimento.

Na greve dos caminhoneiros de 2018, o movimento foi o inverso. O governo federal zerou o PIS/Cofins do diesel, e o Rio de Janeiro reduziu o ICMS de 16% para 12% para encerrar a paralisação.

Em 2026 e 2027, o Confaz aprovou alta, não redução.

O ponto em aberto

O Comsefaz admite publicamente que os estados "buscam formas de reduzir o montante da atualização para o diesel", mas nenhuma nota detalha qual seria esse mecanismo.

A pergunta que fica, a cerca de três meses da entrada em vigor, é se essa redução vai virar alíquota menor, prazo de transição, ou nenhuma mudança prática até 1º de fevereiro de 2027.