A escalada tarifária dos Estados Unidos contra o Brasil chegou ao chão de fábrica mineiro. Com a entrada em vigor, na madrugada de 24 de julho, de uma sobretaxa adicional de 12,5% — que se soma à tarifa de 25% aplicada desde o dia 22 —, parte das exportações brasileiras passou a enfrentar tributação de até 37,5% no mercado norte-americano. Em Minas Gerais, um levantamento do Centro Internacional de Negócios da Fiemg identificou 15 produtos diretamente atingidos, que somaram cerca de US$ 234 milhões em vendas aos Estados Unidos em 2025.

A lista é dominada por itens de nicho, mas de peso na balança mineira: sebo de bovinos, ovinos ou caprinos lidera com US$ 33,96 milhões, seguido por disjuntores para tensão de até 1 kV (US$ 32,9 milhões), preparações capilares (US$ 22,25 milhões), pedras preciosas e semipreciosas trabalhadas (US$ 21,34 milhões) e obras contendo magnesita, dolomita ou cromita (US$ 19,15 milhões).

O dado que explica a gravidade do quadro para o estado não é o valor absoluto, e sim a concentração. Minas responde por 99,98% de tudo o que o Brasil exporta em tijolos, placas e peças refratárias com magnésio, cálcio ou cromo; por 99,93% das obras contendo magnesita, dolomita ou cromita; por 99,90% da ardósia trabalhada; e por 97,21% dos disjuntores de baixa tensão. Nesses segmentos não há outro estado para absorver o baque: se o produto mineiro perde competitividade nos Estados Unidos, o Brasil inteiro perde a fatia.

"A combinação das medidas pode colocar produtos brasileiros em desvantagem significativa diante dos principais concorrentes internacionais", avaliou Verônica Ribeiro Winter, do Centro Internacional de Negócios da Fiemg.

O que ficou de fora

Há alívio importante na outra ponta da planilha. Os 15 principais produtos mineiros isentos das novas sobretaxas somam US$ 3,3 bilhões — mais de dez vezes o valor da lista atingida. Entre eles estão o café verde, com US$ 1,6 bilhão e responsável por 83% das exportações brasileiras do produto, e o ferro-gusa, com US$ 1 bilhão e 73% do total nacional. Ferronióbio, carne bovina, celulose, ouro e mel natural também escaparam. Uma regra de transição prevê ainda isenção para mercadorias embarcadas antes de 22 de julho que cheguem aos Estados Unidos até 29 de julho.

No plano nacional, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços calcula que a alíquota cumulativa de 37,5% alcança US$ 6,6 bilhões, ou 16,5% de tudo o que o Brasil vende aos Estados Unidos. Somadas todas as frentes, 48,7% das exportações brasileiras ao mercado americano já estão sob algum tipo de tarifa adicional. A Confederação Nacional da Indústria contabilizou 4.060 produtos afetados pela nova sobretaxa, dos quais 3.985 passam a pagar os 37,5% cheios.

Governo aciona reciprocidade e OMC

A nova taxa foi justificada por Washington com base em investigação da Seção 301 que concluiu que o Brasil não adota mecanismos eficazes para barrar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Além do Brasil, outros 53 países receberam a mesma sobretaxa de 12,5%, entre eles China, Argentina, Japão, Índia e Reino Unido.

O governo brasileiro rechaçou a alegação e classificou a medida como arbitrária e sem base legal. Segundo o Planalto, o Ministério do Trabalho e Emprego apresentou às autoridades americanas documentação sobre a legislação brasileira e a atuação aduaneira no tema, e o país tem 66 convenções da Organização Internacional do Trabalho em vigor, incluindo os quatro instrumentos internacionais sobre trabalho forçado — enquanto os Estados Unidos ratificaram apenas um deles. O Executivo anunciou que vai iniciar os procedimentos previstos na Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso, e levar o caso ao mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

A indústria pede negociação antes de retaliação. "É essencial que o diálogo entre Brasil e Estados Unidos seja mantido e aprofundado", afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban. A Fiemg segue a mesma linha e aposta na intensificação imediata das tratativas diplomáticas e comerciais como principal caminho para reduzir ou modular a sobretaxa.

O pano de fundo é uma retração que já dura dois anos. Depois do recorde de US$ 40,4 bilhões exportados aos Estados Unidos em 2024, as vendas caíram para US$ 37,7 bilhões em 2025 e somaram US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2026 — queda de 13% na comparação anual. A participação americana nas exportações brasileiras encolheu de 12,1% para 9,4%.