Um estudo conduzido na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) colocou números em um incômodo que muitos pais já haviam percebido na tela do celular dos filhos: o YouTube infantil foi tomado por vídeos produzidos com inteligência artificial. A pesquisa, do professor André Mintz, do Departamento de Comunicação Social, com a estudante Juno Bozzi, partiu de uma base de cerca de 17 mil vídeos em português e inglês ligados a conteúdo infantil com marcas de geração automática.
A maior parte do que foi mapeado é musical: imagens criadas por IA embaladas por canções infantis, muitas vezes com trechos desconexos e mudanças de idioma no meio da faixa. O levantamento também encontrou adaptações de histórias clássicas, conteúdos que se apresentam como educativos — lições de alfabeto, por exemplo —, vídeos religiosos e as chamadas produções de "transformação", em que personagens conhecidos de desenho animado aparecem recriados em versões com aparência de criança.
"O que chama a atenção é um certo desprezo pelo espectador infantil, de colocar qualquer coisa e confiar que a criança vai aceitar", afirmou Mintz. Em vários dos vídeos analisados, personagens trocam de nome, de voz e de aparência de uma cena para outra sem qualquer explicação — uma incoerência que o adulto identifica na hora, mas que a criança pequena tende a absorver como parte da história.
Por que o formato se multiplicou
A explicação é econômica. Produzir animação infantil tradicional exige equipe, roteiro e meses de trabalho; com ferramentas de IA generativa, um vídeo sai em minutos e a um custo próximo de zero. Como o público infantil assiste ao mesmo conteúdo repetidas vezes e tem alta tolerância à repetição, o modelo se paga rápido em visualizações — muitos desses vídeos acumulam dezenas ou centenas de milhares de exibições.
O problema não é só a oferta, é a recomendação. Testes feitos por veículos de imprensa mostraram que bastam cerca de 15 minutos navegando por vídeos curtos infantis para o algoritmo começar a sugerir esse tipo de material: em experimento do jornal The New York Times, mais de 40% dos vídeos recomendados na sequência traziam indícios de imagens geradas por inteligência artificial.
O risco está na idade
Especialistas em desenvolvimento infantil concentram o alerta numa faixa específica: até por volta dos 10 anos, a criança ainda está construindo capacidade crítica, autorregulação e tomada de decisão — e é justamente aí que a confusão entre realidade e ficção pesa mais. O cérebro atinge cerca de 90% do tamanho adulto já aos 5 anos, período em que a qualidade do estímulo recebido tem efeito duradouro sobre atenção, linguagem e habilidades sociais.
A fonoaudióloga e psicopedagoga Telma Pantano, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, e Rachel Franz, diretora do programa Young Children Thrive Offline, da organização Fairplay, estão entre os profissionais que apontam prejuízo à capacidade de concentração quando o conteúdo oferece estímulo constante sem construção narrativa. Do lado regulatório, João Victor Archegas, coordenador de Direito e Tecnologia do ITS Rio, avalia que a fiscalização desse tipo de conteúdo ainda é frágil diante do volume produzido.
O YouTube afirma que combater conteúdo de baixa qualidade gerado por IA é "prioridade máxima", que mantém políticas mais rigorosas para vídeos destinados ao público infantil e que só permite monetização quando há criação original que acrescente perspectiva autêntica. A recomendação prática dos especialistas aos pais é conhecida, mas ganhou urgência: limitar a exposição a esse tipo de vídeo, preferir conteúdo com autoria identificável e proteger o tempo offline — brincadeira livre, sono e convívio.














