O governo brasileiro acionou neste fim de semana dois dos instrumentos mais duros da diplomacia convencional para responder ao presidente da Argentina, Javier Milei. No domingo (26), o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para transmitir a "repulsa" do governo federal às declarações feitas pelo argentino um dia antes, em São Paulo. Horas antes, o Itamaraty já havia chamado a Brasília, para consultas, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli.
As duas medidas somadas são incomuns. Convocar um embaixador estrangeiro é o gesto formal usado quando um país quer registrar insatisfação grave; chamar o próprio representante para consultas é um passo adicional, que sinaliza revisão do tom da relação bilateral. Segundo diplomatas ouvidos pela imprensa brasileira, a combinação das duas só tem precedente recente na crise de 2024 com Israel.
O que Milei disse
Milei discursou no sábado (25) na convenção do Partido Liberal que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Ele classificou a candidatura como "uma grande esperança" para o que chamou de "onda azul" na América do Sul e alertou o senador de que "os esquerdistas vão jogar duro".
O trecho que provocou a reação oficial foi o ataque ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, a quem Milei se referiu como "lixo careca" ao reclamar de não ter obtido autorização para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso em Brasília. O argentino também atacou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e associou o Brasil a um suposto "enclave" de disseminação do comunismo na região, ao lado de Cuba.
A resposta oficial e o cálculo político
Na nota em que anunciou a convocação, assinada pela chancelaria comandada por Mauro Vieira, o Itamaraty afirmou não haver "precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, cometa agressões e ofensas contra o chefe de Estado, as instituições democráticas, inclusive o Poder Judiciário, e o povo brasileiro". O texto destacou ainda que o episódio envolve "um país com o qual o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação".
O presidente do STF, Edson Fachin, classificou a fala como desrespeitosa à "civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados". O presidente do PT, Edinho Silva, disse que a conduta é incompatível com o cargo ocupado por Milei.
A reação não foi automática. Antes do evento, o Planalto acompanhava a visita com a orientação de só responder oficialmente se houvesse ataque às urnas eletrônicas, ao processo eleitoral ou às instituições brasileiras — linha que, na avaliação do governo, foi cruzada com a ofensa ao STF. Auxiliares de Lula avaliavam também que um confronto aberto com o argentino em ano eleitoral não é necessariamente desfavorável ao petista.
O episódio ocorre num momento em que a política externa já é tema de disputa na pré-campanha de 2026, com o tarifaço americano sobre produtos brasileiros no centro do debate econômico. Argentina e Brasil são os dois maiores parceiros comerciais dentro do Mercosul, e a crise se dá sem que nenhum dos governos tenha anunciado, até agora, medidas que afetem o comércio entre os países.
















