O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da China, Xi Jinping, conversaram por telefone no domingo (26) e concordaram em acelerar as negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a China, segundo nota divulgada pelo Palácio do Planalto. A conversa durou mais de uma hora e aconteceu num momento de tensão comercial e diplomática entre Brasília e Washington.

Além do acordo entre o bloco sul-americano e os chineses, os dois líderes trataram da ampliação de parcerias em setores de alto valor agregado: inteligência artificial, satélites, beneficiamento de minerais críticos e comércio de fertilizantes — insumo estratégico para o agronegócio brasileiro, que importa a maior parte do que consome. Também foram citados o avanço de projetos de desenvolvimento nos dois países, uma isenção de vistos de curta duração para turismo e negócios e a ampliação do Ano Cultural Brasil-China.

Segundo o relato oficial da conversa, Xi Jinping afirmou que a China apoia o Brasil na defesa de sua soberania e se opõe a interferências externas no país. Lula, por sua vez, reiterou o compromisso de diversificar mercados e parceiros comerciais. Os dois também trocaram avaliações sobre a conjuntura internacional, os esforços de paz na Ucrânia e o papel do G20 e do Brics na defesa do multilateralismo, além de reafirmarem apoio à reforma da governança global e ao sistema das Nações Unidas.

Por que a China pesa tanto nessa conta

Os números explicam a pressa. A corrente de comércio entre Brasil e China — soma de exportações e importações — atingiu o recorde de US$ 171 bilhões em 2025, alta de 8,2% sobre 2024. O valor equivale a 27,2% de tudo o que o Brasil negociou com o mundo no período, num total de US$ 629 bilhões.

As exportações brasileiras aos chineses somaram cerca de US$ 100 bilhões, o segundo maior valor da série histórica iniciada em 1997, puxadas pela soja, que respondeu por pouco mais de um terço das vendas ao país asiático e cresceu 10% no ano. A China permaneceu como principal destino das exportações brasileiras, com 28,7% do total, e principal origem das importações, com 25,3%.

Na comparação direta, as trocas com os Estados Unidos ficaram em US$ 83 bilhões — menos da metade do volume negociado com a China. É esse desequilíbrio que sustenta o argumento do governo de que a pressão tarifária americana, embora dolorosa para setores específicos, não define sozinha o comércio exterior brasileiro.

Um acordo que especialistas veem como longo

A ideia de um tratado entre o Mercosul e a China não é nova: Lula já havia defendido publicamente a negociação em junho, durante cúpula do bloco, quando disse que o objetivo era repetir com os chineses o movimento de aproximação feito com outros mercados dinâmicos. A nota do domingo acrescenta que as tratativas devem contemplar as "flexibilidades" consideradas necessárias pelos dois lados — expressão que, na prática, reconhece a dificuldade do tema.

Analistas de comércio exterior avaliam que um acordo desse porte dificilmente sai no curto ou médio prazo. Um tratado Mercosul-China precisaria de consenso entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — bloco que hoje reúne governos com visões distintas sobre abertura comercial e sobre a própria relação com Pequim — e enfrentaria resistência da indústria de transformação brasileira, exposta à concorrência de manufaturados chineses. O acordo entre Mercosul e União Europeia, por comparação, levou mais de duas décadas até destravar.

Para o Brasil, o cálculo imediato é menos o tratado em si e mais a sinalização: com parte da pauta exportadora para os Estados Unidos encarecida por tarifa adicional, o governo busca demonstrar que há demanda alternativa para café, carnes, minério e soja. Setores em que a fatia americana é grande, no entanto, não têm substituição automática — o comprador chinês absorve bem commodities, mas não compra na mesma proporção produtos industrializados e manufaturados de nicho.