O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne nesta terça-feira (28) e quarta-feira (29) para definir a taxa básica de juros da economia brasileira. A decisão é divulgada no fim da tarde de quarta e chega num momento em que o principal risco para a inflação voltou a vir de fora: o preço do petróleo.

A Selic está em 14,25% ao ano desde 17 de junho, quando o Copom promoveu um corte de 0,25 ponto percentual por decisão unânime. Foi o segundo movimento de baixa do ano — em abril, a taxa havia recuado de 14,75% para 14,50%. O ciclo, portanto, é lento e cauteloso, bem diferente das quedas rápidas que o país viu em outros afrouxamentos monetários.

O que mudou desde junho foi o cenário externo. O barril do petróleo tipo Brent fechou o dia 21 de julho cotado a US$ 91,01, alta de 2,01%, e voltou a superar a marca dos US$ 90 pela primeira vez em cerca de um mês. O WTI, referência americana, ficou em US$ 84,91, com valorização semelhante. Ao longo do mês, a commodity chegou a flertar com os US$ 100.

Ormuz e Mar Vermelho no centro da alta

A escalada tem endereço. O Estreito de Ormuz, passagem por onde escoa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo, ficou travado em meio às hostilidades entre Estados Unidos e Irã. No Mar Vermelho, ataques dos houthis ao tráfego marítimo no Estreito de Bab el-Mandeb atingiram embarques sauditas. As vendas externas de petróleo da Arábia Saudita caíram para 3,434 milhões de barris por dia em maio, contra 3,986 milhões em abril — o terceiro recuo mensal seguido.

Bancos e agências passaram a trabalhar com cenários mais duros. O Goldman Sachs projeta Brent em US$ 120 no quarto trimestre caso as interrupções de oferta se prolonguem, e a Agência Internacional de Energia sinalizou risco crescente ao fornecimento global. Do outro lado, a EIA, agência de energia dos Estados Unidos, estima queda média de 1,2 milhão de barris por dia no consumo mundial em 2026, concentrada na Ásia — um contrapeso que ajuda a explicar a volatilidade dos últimos dias.

O que isso significa no bolso do brasileiro

O petróleo caro entra na conta da inflação brasileira por duas portas. A primeira é direta: combustíveis têm peso relevante no IPCA. O preço médio da gasolina comum no país está em torno de R$ 6,58 o litro, segundo o levantamento semanal da ANP, e ficou praticamente estável nas últimas semanas — recuou 0,45% na semana de 12 a 18 de julho. A segunda porta é indireta e mais lenta: diesel mais caro encarece frete, e frete encarece alimento, remédio e material de construção.

Até agora, o repasse não chegou à bomba. A Petrobras não anunciou reajuste de gasolina em julho, e a direção da empresa disse que ainda avalia o movimento, sem calendário nem percentual definidos. Em maio, a estatal chegou a aplicar desconto de R$ 0,44 por litro no âmbito de uma subvenção econômica do governo federal, medida que amorteceu o efeito para distribuidores e consumidores.

No mercado, a leitura predominante é de cautela. O Boletim Focus de 20 de julho manteve pela quarta semana seguida a mediana da Selic em 14% para o fim de 2026 — ou seja, apenas mais um corte de 0,25 ponto até dezembro. O BTG Pactual passou a projetar dois cortes de 0,25 ponto no segundo semestre e, ao mesmo tempo, elevou a estimativa para o dólar no fim do ano de R$ 4,90 para R$ 5,40, citando um Federal Reserve mais duro. Câmbio mais alto encarece importados e realimenta a inflação, o que reduz o espaço do Banco Central para acelerar a queda dos juros.

Há um fator na direção contrária: a atividade econômica doméstica começa a dar sinais de perda de fôlego, o que tende a segurar preços. É esse equilíbrio — choque de energia lá fora, economia desacelerando aqui dentro — que o Copom precisa arbitrar na quarta-feira. Mais do que o número da taxa, o mercado vai ler o comunicado palavra por palavra em busca da sinalização sobre agosto e setembro.