O Itamaraty negou os vistos de entrada de dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos que tinham viagem marcada a Brasília para tratar de integridade eleitoral e liberdade de expressão. A recusa foi confirmada pelo governo brasileiro e revelada inicialmente pelo jornal americano The Washington Post.

Os pedidos foram protocolados no consulado brasileiro em Washington em 20 de julho e recusados ainda na mesma semana. A comitiva americana pretendia permanecer no país entre 27 e 30 de julho, com agenda que incluiria autoridades de governo, lideranças religiosas e representantes da sociedade civil.

Quem são os emissários barrados

Trata-se de Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente — ambos lotados no escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, pasta comandada por Marco Rubio. Barnes atua na área desde 2025 e acumula funções ligadas à liberdade religiosa internacional; Samson, de 27 anos, foi nomeado para o cargo em 3 de maio de 2026 e vem da militância conservadora, com passagem por uma organização ligada ao vice-presidente JD Vance.

Oficialmente, o Departamento de Estado confirmou o planejamento da viagem, mas não detalhou o propósito da agenda. Autoridades brasileiras ouvidas pela imprensa americana afirmam que a leitura no Planalto foi outra: a de que os enviados buscariam interlocutores críticos da urna eletrônica para embasar um documento capaz de lançar dúvida sobre o sistema de votação brasileiro às vésperas do pleito de outubro.

Contexto de atrito e resposta de Lula

A recusa ocorre dias depois de o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, ter repetido diante de diplomatas estrangeiros questionamentos sobre a segurança das urnas — alegações já rejeitadas pelo Tribunal Superior Eleitoral. Procurado, o TSE informou que a embaixada americana chegou a sondar a corte sobre receber os funcionários, mas que nenhum detalhe de agenda foi fechado; o tribunal tem um encontro com embaixadores marcado para 17 de agosto.

Em discurso na convenção estadual do PT em São Paulo, o presidente Lula reagiu ao episódio afirmando que quem vier de fora tentar interferir na eleição brasileira "vai apanhar" e que "o Brasil é soberano". O caso se soma a uma sequência de desgastes entre os dois governos no ano eleitoral, que inclui a sobretaxa imposta por Washington a produtos brasileiros e as críticas da Casa Branca a processos judiciais em curso no país.

Não há, até o momento, anúncio de retaliação formal por parte dos Estados Unidos nem indicação de que novos pedidos de visto tenham sido apresentados.