O Ministério da Saúde começou a veicular neste domingo (26) uma campanha nacional de prevenção aos danos causados pelas apostas online. As peças, distribuídas para televisão, rádio e redes sociais, entram no ar em meio ao calendário mais cheio do futebol brasileiro — justamente o período em que as plataformas de aposta concentram anúncios e promoções.

A campanha tem dois eixos. O primeiro é explicar por que o uso das bets escapa do controle com facilidade: as plataformas funcionam 24 horas por dia, no celular, e usam notificações e recompensas variáveis — o prêmio que chega em intervalos imprevisíveis — para manter o usuário apostando. O segundo é dizer onde buscar ajuda, informação que, segundo a pasta, ainda não chega a boa parte de quem já perdeu o controle.

Onde buscar atendimento

O atendimento é gratuito e tem duas portas de entrada. Pelo aplicativo Meu SUS Digital, o usuário acessa teleatendimento em saúde mental e ferramentas de autoavaliação, que ajudam a identificar se o comportamento já configura um problema. O serviço remoto foi criado em março deste ano e registrou quase 7 mil usuários nos três primeiros meses de funcionamento.

Presencialmente, o caminho começa na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima, que faz o encaminhamento ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) quando o caso exige tratamento especializado. Não é preciso encaminhamento prévio nem diagnóstico fechado para procurar a UBS.

Entre os sinais de alerta listados pela campanha estão apostar por mais tempo ou gastar mais do que o planejado, alterações de sono e de humor e prejuízo nas relações familiares e de trabalho. O transtorno do jogo é reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID) e pelo manual DSM-5 como transtorno por comportamento aditivo — ou seja, uma condição de saúde, e não uma questão de força de vontade.

A conta que chegou ao SUS

A campanha responde a uma demanda que cresceu rápido. Dados apresentados pelo Ministério da Saúde em audiência pública na Câmara dos Deputados mostram que a procura por atendimento em saúde mental relacionado a apostas no SUS subiu quase 140% em cinco anos. O perfil predominante é de homens entre 18 e 50 anos.

O desequilíbrio entre o dinheiro que entra e o custo que fica também aparece nos números oficiais. Entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, R$ 57 milhões arrecadados com a tributação das apostas chegaram ao Fundo Nacional de Saúde — cerca de 1,15% da receita do setor. Estimativas de pesquisadores apontam custo social anual na casa dos R$ 38,8 bilhões, dos quais R$ 30,6 bilhões associados a impactos em saúde mental.

Além do SUS, quem quer interromper o uso pode recorrer à Plataforma Centralizada de Autoexclusão, mantida no âmbito do Ministério da Fazenda, que bloqueia de uma só vez o acesso do apostador a todos os sites autorizados a operar no país. Mais de 500 mil pessoas já pediram formalmente a autoexclusão.