Morreu no sábado (25), aos 53 anos, Lucimar das Neves Ferreira, um dos sobreviventes diretos do acidente radiológico com césio-137 em Goiânia. Ele foi encontrado sem vida pela esposa na casa onde morava, em Abadia de Goiás, na Região Metropolitana da capital. A morte foi confirmada por Marcelo Santos Neves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio). A causa não foi divulgada oficialmente.
Lucimar era irmão de Leide das Neves Ferreira, a menina de 6 anos que se tornou o rosto mais conhecido da tragédia. Quando o acidente aconteceu, em setembro de 1987, ele tinha 14 anos e integrava o núcleo familiar diretamente exposto ao material radioativo. Segundo a associação, ele convivia com depressão e alcoolismo e já havia tentado tirar a própria vida em outra ocasião — um retrato, dizem os sobreviventes, do peso psicológico que a exposição e o estigma deixaram em quem ficou.
O acidente que mudou a história da segurança radiológica
A contaminação começou em 13 de setembro de 1987, quando catadores encontraram um aparelho de radioterapia abandonado numa clínica desativada de Goiânia e o venderam a um ferro-velho. Ali, a cápsula foi aberta e revelou um pó azulado que brilhava no escuro. Sem saber que se tratava de material radioativo, moradores manusearam e distribuíram a substância entre familiares e vizinhos, espalhando a contaminação por vários pontos da cidade.
O balanço oficial registra quatro mortes imediatas por síndrome aguda de radiação, 249 pessoas com algum nível de contaminação e mais de 112 mil monitoradas em uma das maiores operações de saúde pública já montadas no país. O episódio gerou cerca de 3.500 metros cúbicos de rejeito radioativo, depositado em Abadia de Goiás — o mesmo município onde Lucimar viveu seus últimos anos. É considerado o maior acidente radiológico do mundo fora de usinas e testes nucleares.
Uma luta que continua quase 40 anos depois
Passadas quase quatro décadas, mais de mil goianos ainda são acompanhados pelo Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados (CARA). A AVCésio afirma que a pensão vitalícia assegurada pela lei estadual nº 14.226 está defasada: boa parte dos beneficiários recebe cerca de R$ 954, valor abaixo do salário mínimo e sem reajuste desde 2018. A entidade também cobra que o atendimento no CARA não sofra interrupções.
A associação estima que, além das mortes imediatas, dezenas de pessoas expostas morreram nos anos seguintes por cânceres e outras complicações — um número que nunca foi consolidado oficialmente. Para os sobreviventes, o efeito mais duradouro foi social: por anos, quem carregava o rótulo de radioacidentado enfrentou dificuldade para conseguir emprego e moradia em Goiânia.
Se você está passando por sofrimento emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende 24 horas pelo telefone 188 e pelo site cvv.org.br, de forma gratuita e sigilosa.
















