A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou alerta afirmando que a retatrutida não foi aprovada para uso ou comercialização em nenhum país do mundo e que, portanto, qualquer produto vendido atualmente com esse nome é irregular. O comunicado responde ao avanço de um mercado paralelo que anuncia a substância como a nova geração das chamadas canetas emagrecedoras, em publicações de redes sociais e sites de venda direta.
Segundo a agência, nenhum pedido de registro foi apresentado à Anvisa nem a órgãos reguladores internacionais. O programa de estudos clínicos da farmacêutica Eli Lilly, responsável pela molécula, ainda não foi concluído, e não há data confirmada para uma eventual chegada ao mercado. Hoje, o único acesso legítimo à substância é a participação em pesquisa clínica oficial.
O tamanho do mercado clandestino aparece nos números da fiscalização. Apenas no primeiro trimestre de 2026, o valor das canetas emagrecedoras irregulares retidas na fronteira ultrapassou R$ 11 milhões — mais do que todo o volume apreendido ao longo de 2025. As ações se concentram na região de Foz do Iguaçu, no Paraná, principal porta de entrada de produtos trazidos do Paraguai, e envolvem Receita Federal e Anvisa.
Por que a substância virou objeto de desejo
A retatrutida age simultaneamente em três receptores metabólicos (GLP-1, GIP e glucagon), um a mais do que medicamentos já registrados como a semaglutida e a tirzepatida, princípios ativos de remédios como Ozempic, Wegovy e Mounjaro. Em estudo de fase 3 com mais de 2.300 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, o grupo que recebeu a dose mais alta perdeu, em média, 28,3% do peso corporal em 80 semanas, chegando a reduções de até 31,9 kg. Os pesquisadores também relataram melhora de glicemia, risco cardiovascular, apneia do sono e dor por osteoartrite.
São exatamente esses resultados, divulgados antes de qualquer aprovação regulatória, que alimentam a procura. Em março, uma empresa chegou a promover no Paraguai canetas supostamente contendo a substância em evento com influenciadores brasileiros.
O risco de comprar o que ninguém fiscalizou
Como não existe fabricação industrial autorizada, não há garantia de que as canetas vendidas contenham a substância anunciada, na concentração informada, nem de que tenham sido produzidas, transportadas e armazenadas em condições seguras. A Anvisa afirma que o conteúdo da embalagem pode apresentar concentração diferente da anunciada, conter impurezas, microrganismos ou outras substâncias — ou nem sequer trazer o princípio ativo do rótulo. Sem bula, o comprador também fica sem informação sobre contraindicações e interações com outros remédios.
Outro ponto levantado pela agência é a ausência de rastreabilidade: não há sistema confiável para identificar lotes e investigar reações graves. Nos ensaios clínicos, os efeitos adversos mais comuns foram náusea, diarreia, constipação e vômitos — e esse acompanhamento só existe dentro do estudo, com equipe médica monitorando os participantes.
A Anvisa orienta que a população não compre nem utilize, em nenhuma hipótese, medicamentos sem registro sanitário, e lembra que a comercialização de produtos irregulares pode configurar crime.
















