O governo brasileiro chamou para consultas o embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, um dia depois de o presidente argentino Javier Milei atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo e o Judiciário brasileiro em discurso na convenção do PL, em São Paulo. A decisão foi tomada na manhã deste domingo (26) pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, depois de consultar Lula.

Na convenção de sábado (25), ao lado de Flávio Bolsonaro, oficializado candidato do PL à Presidência, Milei citou o presidente brasileiro mais de uma vez como "presidiário" e classificou o governo brasileiro como "socialistas ladrões", apresentando o senador como o nome capaz de "parar Lula". O argentino também dirigiu críticas a integrantes do Supremo Tribunal Federal.

O que significa chamar um embaixador para consultas

A chamada para consultas é um dos instrumentos mais severos do repertório diplomático que ainda não implica ruptura de relações. Na prática, o chefe da missão deixa o posto e retorna à capital para relatar pessoalmente a situação e receber orientações — um recado público de que o país considera ter havido crise. Medidas mais graves seriam a retirada definitiva do embaixador, a redução do nível da representação e, no limite, o rompimento de relações diplomáticas.

Segundo interlocutores do governo, o Palácio do Planalto e o Itamaraty avaliam ainda outras respostas formais, entre elas convocar o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos. A leitura predominante no governo é que a defesa política de um candidato brasileiro por um chefe de Estado estrangeiro seria tolerável, mas os ataques pessoais a Lula e às instituições brasileiras ultrapassaram o limite aceitável.

Uma relação já desgastada

O episódio se soma a um histórico de atritos entre as duas presidências. Milei nunca fez uma visita bilateral oficial a Lula desde que assumiu, em dezembro de 2023, e tem preferido a aproximação com a direita brasileira aos encontros de governo — mesmo com Argentina e Brasil sendo sócios fundadores do Mercosul e os maiores parceiros comerciais um do outro dentro do bloco.

Antes da decisão sobre o embaixador, o ministro do STF Edson Fachin já havia classificado como "desrespeitosa" a fala do argentino sobre a Corte, e o Itamaraty estudava uma reação. Auxiliares do governo brasileiro avaliam que os episódios do fim de semana encerraram a postura de contenção mantida até aqui, em um ano em que a política externa se mistura à disputa eleitoral de outubro.

Até a publicação desta reportagem, o governo argentino não havia se manifestado oficialmente sobre a decisão brasileira.