A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) se encerra neste domingo (26), no centro histórico da cidade fluminense, depois de cinco dias de programação iniciados na quarta-feira (22). A edição de 2026 teve 21 mesas na programação principal, além de atividades gratuitas espalhadas pela cidade, e homenageou a poeta paulista Orides Fontela (1940-1998), autora de obra marcada pela inspiração filosófica e cujos versos batizaram cada uma das mesas do festival.

O último dia teve três encontros, às 10h, ao meio-dia e às 15h30. A curadoria desta edição foi chefiada pela editora e crítica literária Rita Palmeira, que montou uma grade voltada a temas como democracia, autoritarismo, migração, memória, colonialismo, identidade e guerra.

Cármen Lúcia lota a Flip em defesa do voto

A mesa de maior público da edição foi a da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, que lançou em Paraty o livro Pela Mão do Povo — Democracia e Voto no Brasil, escrito com a historiadora Heloisa Starling, professora da Universidade Federal de Minas Gerais. A ministra afirmou que a democracia depende da participação da população, e não apenas das instituições, e sustentou que as urnas eletrônicas passam por auditorias constantes, sem registro comprovado de falhas no sistema eleitoral.

Cármen Lúcia também fez uma defesa enfática da presença de mulheres em posições de autoridade, inclusive no próprio Supremo, e lembrou que o Brasil tem um dos piores índices de mulheres eleitas para o Congresso na América Latina, abaixo de 30%. Ela criticou tentativas de restringir ou relativizar o direito de voto, afirmando que voto é um direito. Intercalando citações de Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis com causos, encerrou a participação sob aplausos de pé. A fala ocorre a pouco mais de dois meses das eleições gerais de outubro.

Angela Davis critica gentrificação em Paraty

Na véspera, no sábado (25), a filósofa e ativista norte-americana Angela Davis esteve em Paraty pela primeira vez durante a Flip. Sua participação integrou a programação paralela e gratuita da Casa Sesc, na mesa "América e África: uma conversa Atlântica", mediada pela jornalista Flávia Oliveira, no Sesc Caborê.

Davis criticou o processo de gentrificação na própria Paraty, afirmando que se tentam criar meios de ampliar o lucro tirando as pessoas de suas terras e das terras de seus ancestrais. Também elogiou pensadoras brasileiras como Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento, destacando os conceitos de amefricanidade e de identidade atlântica, e comparou a escritora mineira Conceição Evaristo — que assistia à conversa na plateia — a nomes como Nina Simone e Toni Morrison. Capitalismo, avanço da extrema direita, violência de gênero e acesso de estudantes negros à universidade estiveram entre os temas abordados.

A programação de 2026 reuniu ainda a britânica Zadie Smith, a espanhola Eva Baltasar e o médico e escritor Drauzio Varella, além de autores africanos e latino-americanos. Os ingressos das mesas principais foram vendidos a R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) no primeiro lote, chegando a R$ 140 e R$ 70 no segundo.