Comprar os alimentos básicos do mês virou uma conta cada vez mais pesada para quem ganha o piso nacional. Segundo a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, divulgada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e pelo Dieese com dados de junho, o trabalhador precisa dedicar 105 horas e 51 minutos de trabalho por mês apenas para pagar a cesta — cerca de treze jornadas de oito horas, em escala 5x2. O conjunto de produtos consome 52,02% do salário mínimo líquido, hoje fixado em R$ 1.621.

O custo médio da cesta nas 27 capitais pesquisadas ficou em R$ 779,95, com alta de 8,69% em 12 meses — mais que o dobro da variação do grupo Alimentação e Bebidas no IPCA do IBGE no mesmo período, de 3,82%. Na comparação de maio para junho, o valor subiu em 17 capitais e caiu em 10.

BH entre as maiores altas do país

Em Belo Horizonte, a cesta custou R$ 826,72 em junho, praticamente estável em relação a maio (0,09%), mas com alta de 12,52% em 12 meses — a terceira maior variação anual entre as capitais, atrás apenas de Cuiabá (14,71%) e Aracaju (13,12%). No acumulado do primeiro semestre, o avanço na capital mineira chega a 14,30%.

O peso vem sobretudo dos hortifrúti e dos grãos. Em BH, o tomate acumula alta de 107,30% em 2026, a batata subiu 79,76% e o feijão carioca, 54,78%. O mesmo padrão aparece em São Paulo, onde os itens que mais pressionaram o mês foram feijão carioca (12,05%), batata (7,47%) e carne bovina de primeira (1,70%).

A capital paulista segue com a cesta mais cara do Brasil, a R$ 965,47, seguida por Cuiabá (R$ 937,93), Rio de Janeiro (R$ 920,94) e Florianópolis (R$ 918,42). Na outra ponta, Aracaju tem a mais barata, a R$ 630,40 — diferença de mais de R$ 330 entre os extremos. Entre maio e junho, as maiores altas mensais foram em Boa Vista (3,28%), Palmas (3,01%), Rio Branco (2,20%) e Porto Alegre (2,18%).

Salário mínimo necessário seria cinco vezes maior

A partir do valor da cesta mais cara, o Dieese calcula mensalmente o chamado salário mínimo necessário — o valor que uma família de quatro pessoas precisaria para cobrir alimentação, moradia, saúde, educação, transporte, vestuário, higiene, lazer e previdência, como determina a Constituição. Em junho, esse patamar ficou em R$ 8.110,92, cerca de cinco vezes o piso vigente e mais que o dobro do rendimento médio do trabalhador brasileiro, de aproximadamente R$ 3.726.

O indicador não é uma proposta de reajuste, e sim um parâmetro de referência que a entidade calcula desde os anos 1990 para dimensionar a distância entre o mínimo legal e o custo de vida real. A metodologia da pesquisa é baseada no decreto de 1938 que instituiu o salário mínimo no país e acompanha os preços de 13 produtos essenciais coletados nas capitais.