O governo brasileiro negou o visto de entrada a dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos que pretendiam vir ao país para tratar do sistema eleitoral brasileiro a pouco mais de dois meses do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. A decisão foi tomada em 24 de julho e confirmada pelo Itamaraty no dia seguinte.
Os dois nomes barrados são Riley Barnes, subsecretário de Estado para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, no cargo desde 2025, e Samuel Samson, subsecretário adjunto da mesma área. Segundo a versão apresentada por Washington, a dupla tinha agenda em Brasília entre 27 e 30 de julho para encontros com autoridades de governo, lideranças religiosas e representantes da sociedade civil, com pauta que incluiria integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão. O Departamento de Estado descreveu o roteiro como uma visita de rotina e rejeitou as suspeitas levantadas no Brasil.
A leitura do Executivo brasileiro foi outra. Para o Itamaraty, receber emissários estrangeiros para discutir urnas no meio do calendário eleitoral configuraria instrumentalização política do processo de votação. Pesou na decisão o fato de o pedido de visto ter chegado na esteira de um encontro em que parlamentares brasileiros apresentaram a diplomatas estrangeiros questionamentos sobre as urnas eletrônicas.
O que desencadeou a crise
O episódio que antecedeu o pedido de visto foi um discurso do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) diante de diplomatas estrangeiros em Brasília, em 21 de julho. Na fala, ele associou os equipamentos usados nas eleições brasileiras à empresa venezuelana Smartmatic, sem apresentar comprovação.
No dia seguinte, 22 de julho, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desmentiu a alegação em nota. A corte afirmou que são falsas as mensagens segundo as quais a Smartmatic fornece urnas ou softwares usados no Brasil, e que todo o projeto da urna eletrônica e do sistema de votação foi concebido por servidores e técnicos da Justiça Eleitoral, sendo gerido inteiramente pelo próprio tribunal — os equipamentos são fabricados sob coordenação direta do TSE, a partir de licitação pública. Não é a primeira vez que o tribunal precisa desfazer a associação: negativas semelhantes foram publicadas em 2017, 2020 e 2022.
Também em 22 de julho, a Federação Brasil da Esperança, que reúne PT, PV e PCdoB, apresentou representação no TSE contra Flávio Bolsonaro e outros três parlamentares — Eduardo Bolsonaro, Gustavo Gayer e Júlia Zanatta —, sob a acusação de coordenar campanha de desinformação contra a credibilidade das urnas entre 17 e 21 de julho. A ação ainda não foi julgada, e os citados não foram condenados por nenhuma das condutas descritas na representação.
Tensão diplomática em ano eleitoral
A negativa de visto ocorreu antes da divulgação de reportagem que vinculou os dois funcionários a uma estratégia de contestação da confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro, o que reforçou, no lado brasileiro, a avaliação de que a viagem não teria caráter estritamente técnico. Recusar visto a servidores estrangeiros é prerrogativa do Estado brasileiro e não depende de justificativa formal ao país de origem, mas o uso desse instrumento contra integrantes de um governo historicamente aliado é raro e tende a elevar o atrito.
O caso se soma a um ano de desgaste na relação entre Brasília e Washington, em que medidas comerciais e sanções a autoridades brasileiras já vinham tensionando o diálogo bilateral. Nas próximas semanas, o TSE deve intensificar sua estrutura de checagem e resposta a conteúdo falso sobre o voto, rotina que se repete a cada ciclo eleitoral. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
















