O petróleo voltou à casa dos US$ 100 por barril e recolocou no radar da economia brasileira um risco que parecia contornado no primeiro semestre: uma nova rodada de aumento nos combustíveis. O contrato futuro do tipo Brent, referência internacional, subiu cerca de 7% e fechou a US$ 100,69 na quinta-feira (23), maior valor desde 22 de maio. Durante o pregão, chegou a tocar US$ 102.

O estopim foi geopolítico. Rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, reivindicaram ataques a dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho, dias depois de anunciarem um bloqueio naval contra a Arábia Saudita. A rota é uma das mais movimentadas do mundo para o transporte de óleo, e a percepção de que o fornecimento global pode ser interrompido derrubou a margem de segurança que mantinha o barril perto de US$ 72 em meados de junho.

Efeito nas bombas leva semanas para aparecer

O repasse não é imediato, mas costuma chegar. Nos Estados Unidos, onde a formação de preço é mais rápida, o galão da gasolina saiu de US$ 3,94 para US$ 4,09 em uma semana. No Brasil, a Petrobras trabalha com uma política de preços que suaviza a volatilidade de curto prazo, o que dá alguma folga — mas também significa que, se o barril se acomodar acima de US$ 95, o ajuste tende a ser feito de forma escalonada nas refinarias.

O momento é delicado porque o consumidor brasileiro acabou de sentir alívio. Os últimos levantamentos de preço mostraram queda na gasolina e no gás de cozinha, enquanto o diesel já havia voltado a subir. Uma reversão desse quadro atingiria não só o motorista: o diesel entra no custo de praticamente todo alimento que roda de caminhão pelo país, e é por esse canal que o petróleo caro chega ao supermercado.

Copom decide juros em 4 e 5 de agosto

A conta chega ao Banco Central. A Selic está em 14,25% ao ano, depois do corte decidido em junho, e o Comitê de Política Monetária volta a se reunir nos dias 4 e 5 de agosto. Antes do salto do petróleo, parte do mercado apostava em mais um corte de 0,25 ponto percentual; agora, o cenário predominante é de cautela, com o boletim Focus projetando a Selic em 14% no fim do ano — ou seja, espaço para apenas um corte nas quatro reuniões restantes.

O pano de fundo já era desfavorável. O Ministério da Fazenda elevou a projeção de inflação para 5,1% em 2026, acima do teto da meta, de 4,5%. Combustível mais caro pressiona diretamente o IPCA de julho e agosto e contamina transporte, indústria e logística — justamente os itens que espalham o aumento pelo resto da economia.

Há um contrapeso. Como o Brasil exporta petróleo, a alta favorece a receita da Petrobras, cujas ações reagiram positivamente ao movimento, e melhora a balança comercial. O problema é que esse ganho fica concentrado, enquanto o custo se dilui por toda a população na forma de preço mais alto no posto e na prateleira.

O efeito inflacionário de um choque de petróleo costuma se estender por vários meses, mesmo que a cotação recue depois. Por isso, a próxima referência a acompanhar não é apenas o barril do dia, mas se a tensão no Mar Vermelho se prolonga — é a duração, e não o susto inicial, que define quanto disso vai parar na conta do brasileiro.