O estado de São Paulo confirmou 13 casos de sarampo em 2026, concentrados na capital, em Guarulhos e em São Bernardo do Campo. Os doentes se dividem em dois grupos que são exatamente os mais desprotegidos contra a doença: bebês com menos de 1 ano, ainda sem idade para a dose de rotina, e adultos de 20 a 50 anos que nunca completaram o esquema vacinal.

O número reacende um alerta que o Ministério da Saúde havia feito por escrito em abril, antes de uma bola ser chutada na Copa do Mundo. Em nota técnica, a pasta apontou o torneio disputado entre 11 de junho e 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México como o maior risco recente ao status brasileiro de país livre do sarampo — os três países-sede enfrentam surtos ativos. Em 2025, o Canadá registrou 5.062 casos, o México, 6.152, e os Estados Unidos, 2.144; só em janeiro deste ano, os americanos já haviam somado 721 novos casos.

O documento era direto sobre o que funciona: a vacinação oportuna de viajantes e uma vigilância sensível são as únicas estratégias capazes de reduzir o risco de reintrodução. A recomendação para quem viaja é checar a caderneta com pelo menos 15 dias de antecedência — e 45 dias, no caso de quem precisa tomar as duas doses.

Dose zero para bebês de 6 meses

Desde junho, a orientação nos municípios afetados é aplicar a chamada dose zero da tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) em bebês de 6 a 11 meses, antecipando a proteção que o calendário nacional só prevê aos 12 meses. A dose extra não substitui as seguintes: a criança segue precisando das aplicações de 12 e 15 meses.

A recomendação oficial do Ministério da Saúde é de duas doses para pessoas de 1 a 29 anos sem comprovação de vacina, uma dose para quem tem de 30 a 59 anos na mesma situação e duas doses para profissionais de saúde, independentemente da idade.

O sarampo é uma das doenças mais contagiosas conhecidas. O vírus permanece suspenso no ar em aerossol depois que a pessoa infectada deixa o ambiente, o que permite a transmissão para quem chega depois e não está imunizado.

A brecha está na segunda dose

O Brasil eliminou o sarampo em 2016, perdeu a certificação e a reconquistou em 2024. A fragilidade atual não está na primeira dose, e sim na segunda. Pelos dados de 2025 do Ministério da Saúde, a cobertura nacional foi de 92,7% na primeira dose e de apenas 78% na segunda — a barreira considerada segura para impedir a circulação do vírus é de 95% com o esquema completo. Em Minas Gerais, a cobertura da tríplice viral vinha acima dos 95%, ao lado de Rio de Janeiro, Rondônia e São Paulo, o que ajuda a explicar por que o estado não registrou surto até agora.

O perfil dos casos brasileiros de 2025 mostra a mesma conta: 94,7% dos 38 casos confirmados no ano ocorreram em pessoas não vacinadas. Os dois primeiros casos de 2026, ambos ligados a viagem ou a contato com estrangeiros, também envolveram pessoas sem vacina — uma criança de 6 meses da zona norte de São Paulo que havia estado em La Paz, na Bolívia, e uma funcionária de hotel de 22 anos na Zona Sul do Rio.

O cenário no continente é o pano de fundo. As Américas perderam o status de região livre do sarampo em novembro de 2025, quando foram contabilizados 14.891 casos no ano. Em 2026 o ritmo acelerou: até 5 de março já eram 7.145 infecções confirmadas, quase metade do total do ano anterior em pouco mais de dois meses.