O fim da chamada taxa das blusinhas produziu, em poucas semanas, o maior salto já visto no fluxo de compras internacionais de baixo valor no Brasil. Em junho, primeiro mês completo sem a cobrança do imposto federal de importação sobre remessas de até US$ 50, a Receita Federal contabilizou 28,36 milhões de encomendas vindas do exterior — contra 13,02 milhões no mesmo mês de 2025, uma alta de 118%.
Em valor, as importações pelo programa Remessa Conforme somaram R$ 2,6 bilhões no mês, segundo dados da Receita compilados pelo BTG Pactual. É um crescimento de 101% sobre junho de 2025, de 74% sobre abril deste ano — o último mês inteiro com o tributo em vigor — e de 40% apenas na comparação com maio. O volume de pacotes ficou 72% acima do registrado em abril e 84% acima da média dos quatro primeiros meses de 2026.
A alíquota de 20% sobre compras de até US$ 50 havia sido criada por lei em 2024, junto com o Remessa Conforme, programa que passou a exigir das plataformas de comércio eletrônico o envio antecipado de informações à Receita Federal. A cobrança foi zerada por medida provisória publicada em 12 de maio de 2026, com efeito imediato sobre as compras feitas a partir daquela data.
O que o consumidor ainda paga
Zerar a alíquota federal não tornou a compra internacional isenta. O ICMS estadual continua sendo cobrado sobre as remessas, com alíquotas que variam de 17% a 20% conforme o estado — percentual recolhido pelas próprias plataformas no momento da compra. Na prática, um pedido de US$ 50 que antes chegava com dois tributos empilhados agora carrega apenas o imposto estadual, o que explica a queda no preço final e a corrida às plataformas asiáticas.
Também segue valendo o teto de US$ 50 por remessa: acima desse valor, a tributação federal permanece nas regras anteriores. Compras fracionadas para escapar do limite continuam sujeitas a autuação pela Receita.
Varejo e indústria cobram revisão
A reação do setor produtivo foi imediata desde o anúncio. O Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), que reúne grandes redes nacionais, sustenta que a enxurrada de pacotes importados reduz as vendas do varejo instalado no país, derruba a reposição de estoques e pode levar ao fechamento de fábricas ou à transferência de produção para países vizinhos. A entidade argumenta que, no primeiro ano de vigência da cobrança, o setor abriu 107 mil postos de trabalho.
Representantes da indústria e da Confederação Nacional do Comércio (CNC) defendem que a tributação é necessária para equilibrar a concorrência com plataformas estrangeiras, que não arcam com a mesma carga trabalhista e tributária das empresas brasileiras. Parte do setor classificou a revogação como medida de calendário eleitoral. Do outro lado, plataformas de comércio eletrônico e entidades de defesa do consumidor apontam que a taxa encarecia justamente a faixa de compra mais popular, usada por consumidores de baixa renda.
Os números de junho são o primeiro retrato completo do novo cenário e devem alimentar a disputa nos próximos meses — inclusive no Congresso, onde a medida provisória ainda precisa ser convertida em lei para não perder validade.
















