Um estudo de 967 ossos humanos encontrados em três cavernas de Granada, no sul da Espanha, mostra que o canibalismo foi uma prática recorrente na região durante o Neolítico, a Idade da Pedra. A pesquisa saiu no mês passado no Journal of Archaeological Science.
"Não era uma guerra, nem um conflito", disse o professor emérito de antropologia Miguel Botella, da Universidade de Granada, autor do estudo. "Simplesmente comiam os cadáveres depois que as pessoas morriam."
Botella começou a estudar as cavernas do sul da Espanha em 1972, no sítio Las Majolicas, onde achou grandes acúmulos de ossos neolíticos. Mais de 50 anos depois, o novo estudo comparou três cavernas da região: Malalmuerzo, Carigüela e Las Majolicas.
Os 967 restos, de pelo menos 60 indivíduos, foram datados entre 5.300 e 3.760 a.C. Têm marcas de corte compatíveis com desmembramento para consumo, sinais de fervura e fraturas feitas, provavelmente, para retirar a medula.
Na maioria dos casos, as pessoas não foram mortas para servir de alimento. Elas morreram, e só depois foram comidas, segundo os pesquisadores.
Em Malalmuerzo, nome que pode ser traduzido como "almoço ruim" (uma coincidência, segundo Botella), havia ossos de crianças com marcas de mastigação humana. Para a antropóloga argentina Ana Solari, coautora do estudo, os sinais indicam "um consumo muito intenso".
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Em Carigüela, os pesquisadores encontraram taças cranianas, crânios modificados para servir como recipientes, feitas a partir dos crânios de um adulto e de uma criança. O sítio também tinha outras ferramentas de ossos humanos, como furadores e cinzéis de fêmur.
Três motivos diferentes, não um só
O estudo não trata o canibalismo como um fenômeno único. Cada caverna aponta para um motivo diferente.
Em Malalmuerzo, marcas de trauma craniano por força contundente e a presença de bebês, crianças e adultos sugerem que um grupo foi morto antes de parte dele ser consumida. Em Carigüela, o processamento em múltiplas fases, ao longo de gerações, aponta para um ritual repetido.
Em Las Majolicas, os ossos longos foram menos fraturados, e os pesquisadores encontraram restos tingidos com cinábrio, um mineral raro, sinal de tratamento ritual em vez de violência.
Para o pesquisador Antonio Rodríguez-Hidalgo, "evidência arqueológica similar pode esconder realidades sociais muito diferentes".
O achado se soma a outras descobertas recentes sobre hábitos antigos revelados por ossos. No Peru, pesquisadores encontraram 341 ossos de cães em ruínas de 1.400 anos.
Nos Alpes, o degelo expôs um esqui de 2.500 anos preservado na geleira.
No mesmo mês, um fóssil de dinossauro brasileiro revelou resíduo de sangue preservado havia 115 milhões de anos.































