Economistas ouvidos pelo Broadcast descartam a possibilidade de o Brasil repetir o ajuste fiscal do argentino Javier Milei, elogiado nesta segunda-feira (14/9) pela coordenadora de Flávio Bolsonaro (PL), Daniella Marques. Para eles, o país não vive a crise que levou a Argentina ao ajuste radical.
O debate ganhou força depois que Daniella classificou o modelo argentino como "ótimo exemplo" de recuperação da capacidade de investimento e de redução de burocracia e impostos. Ela afirmou que a campanha já mapeou mais de mil normas infralegais para revogar caso Flávio seja eleito.
Me parece que são dois pesos e duas medidas. A economia argentina não se compara com a economia brasileira e, à época em que Milei introduziu o Plano Motosserra, a realidade argentina era uma outra bastante diferente.
afirma o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) César Bergo.
O presidente da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, Marcus Pestana, segue a mesma linha: para ele, o Brasil não vive o "fundo do poço" argentino, e um corte radical esbarraria na Justiça e no Congresso.
"O apoio na Argentina ocorreu porque essas pessoas compreenderam que, ao estar em uma crise aguda, no fundo do poço, era preciso um nível de sacrifício para dar a volta por cima. Aqui não é esse ambiente", disse Pestana.
O que a Argentina mostra até agora
A Argentina reduziu a inflação de perto de 200% ao ano, quando Milei assumiu em 2023, para cerca de 30% ao ano em 2026, mas colhe efeitos colaterais: o desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre, segundo o INDEC.
A informalidade no mercado de trabalho bateu recorde de 45%, segundo o INDEC (Instituto Nacional de Estatística e Censos argentino), e a pobreza ficou em 30% no primeiro trimestre, com indigência de 6,5%, abaixo dos picos de 2024.
O ajuste que derrubou a inflação também elevou o desemprego e a informalidade a recordes na Argentina. A produção industrial do país acumulava queda de 6,1% em 12 meses até fevereiro.
A recuperação econômica de Milei perde força desde o início do ano, segundo dados oficiais argentinos, o que reforça a leitura dos economistas brasileiros.
O que o plano de Flávio prevê
O plano de Flávio Bolsonaro promete não alterar o Bolsa Família nem outros programas sociais. O ajuste se concentra em cortar privilégios na máquina pública e benefícios tributários, segundo a campanha.
A ideia é enviar ao Congresso uma Proposta de Emenda à Constituição de corte de gastos, acompanhada de um levantamento técnico ainda não detalhado publicamente.
Daniella Marques disse que a proposta busca reverter a "criação de novos tributos por meio de normas governamentais" com o que chamou de "revogaço" das medidas do governo Lula.
A campanha já havia detalhado a revogação das mais de mil normas em evento anterior, quando comparou o plano às medidas do ministro Fernando Haddad.
O que acontece agora
A campanha de Flávio ainda não apresentou ao público a PEC de corte de gastos nem o levantamento técnico prometido para embasá-la no Congresso.
Enquanto isso, a Argentina segue reportando indicadores mistos. O FMI projeta que a dívida do país com o Fundo vai triplicar até 2028, para US$ 9,5 bilhões, mesmo com a inflação sob controle.





























