A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) afirma que o receio de perder benefícios sociais dificulta a contratação formal no campo. Um estudo da entidade mostra que 95% dos produtores rurais entrevistados enfrentaram dificuldade para contratar mão de obra este ano.

Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA, deu a declaração ao Poder360 em entrevista gravada em 9 de setembro em Brasília. Do grupo de produtores com dificuldade, 63% relataram candidatos que recusaram vaga por medo de perder o Bolsa Família.

O que a CNA propõe

Lucchi defendeu a integração dos cadastros públicos para identificar sobreposição de benefícios e fraudes, além de mais capacitação em parceria com empresas.

"Os programas sociais, ninguém é contra eles. Eles têm que existir porque tem pessoas que realmente precisam. Agora, eles têm que ser revistos e têm que ter uma melhor efetividade", disse o diretor da CNA.

A proposta central é uma transição em que o trabalhador recebe o benefício social e a renda formal ao mesmo tempo, por 1 a 2 anos, antes de deixar o programa.

O que o governo já faz

A Regra de Proteção do Bolsa Família, segundo o ministro Wellington Dias, cumpre parte do que a CNA propõe.

Quando a renda familiar ultrapassa a linha de pobreza, o benefício cai pela metade por até 12 meses, em vez de ser cortado de uma vez.

"Antes, quem entrava no Bolsa Família e assinava a carteira, perdia o benefício só porque se efetivou em um trabalho formal. Agora não. A gente mede a renda", afirmou Dias.

Segundo o ministério, o programa segue sob escrutínio de órgãos de controle, mas 7,1 milhões de famílias já têm emprego formal ou pequeno negócio e ainda recebem o benefício.

Uma pesquisa do economista Gabriel Mariante, da London School of Economics, aponta na direção oposta à tese da CNA: mães beneficiárias do programa têm probabilidade maior de conseguir emprego formal do que quem não recebe o benefício. Para homens, o efeito não é significativo.

O que acontece agora

Segundo Lucchi, a falta de trabalhadores já atrasa plantio e colheita em algumas propriedades. Isso leva produtores a trocar culturas que exigem mais mão de obra, como fruticultura e horticultura, por lavouras mais mecanizadas, como soja e algodão.

O diesel em alta é outro custo que já pressiona a colheita no país neste mês, e a migração para culturas mecanizadas como o algodão vem crescendo mesmo sem o problema da mão de obra.

A proposta de ampliar a transição entre benefício e emprego formal depende de mudança de regra, e a CNA não informou se já apresentou a ideia formalmente ao Ministério do Desenvolvimento Social.