Uma pesquisa do Instituto Cactus com a AtlasIntel mostra que 58% dos brasileiros relatam sintomas de ecoansiedade, o medo persistente relacionado à crise climática. O levantamento ouviu 10 mil pessoas com mais de 16 anos em todas as regiões do país.
Ecoansiedade não é um diagnóstico clínico nem um transtorno reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), a principal referência da psiquiatria. Ainda assim, pode causar angústia, tristeza, irritabilidade, alterações no sono e crises de ansiedade.
O que a pesquisa mostra
Do total de entrevistados, 74,3% já vivenciaram consequências diretas de eventos climáticos extremos, e 42% afirmam que as mudanças no clima impactaram diretamente sua saúde mental. Um terço enfrenta dificuldade para dormir, trabalhar ou se relacionar por causa dessa ansiedade.
A preocupação diária varia por idade e gênero. Entre os 16 e 24 anos, 25,8% dizem se preocupar todos os dias com o clima; entre os maiores de 60 anos, esse número sobe para 49,7%.
São os mais velhos, e não os jovens, que carregam o medo climático com mais frequência no dia a dia. Entre as mulheres, 44% relatam preocupação diária, contra 28% dos homens.
Bruno Ziller, do Instituto Cactus, resume o efeito social do fenômeno. "Deixa de ser uma questão apenas individual, passa também a ser coletiva quando afeta as relações sociais", disse.
Como a crise climática vira crise pessoal
A designer e estrategista de sustentabilidade Jéssica Alcântara, de 30 anos, começou a sentir ecoansiedade depois de viver uma microexplosão em 2022, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
O vento derrubou o telhado da casa dela sobre a escada de acesso, e ela ficou presa no andar de cima.
"Parecia que eu estava no olho da tempestade. Havia muito barulho, tudo era muito intenso", contou Jéssica.
Em 2023, durante outra ventania, ela teve uma crise de ansiedade tão intensa que não conseguia se levantar do chão. Desde então, começou acompanhamento psicológico, hoje em curso.
Segundo ela, o medo do clima passou a pesar em decisões concretas, como onde morar para reduzir o risco de enchente. Chuvas fortes já forçaram a retirada de moradores em outras partes do país neste ano.
O que acontece agora
A regra NR1 sobre saúde mental no trabalho, que entrou em vigor recentemente após um ano de atraso, passa a cobrar das empresas ações de prevenção a riscos psicossociais, categoria que inclui o estresse ligado a eventos climáticos extremos.
O tema já rendeu documentário sobre os impactos da crise climática na infância brasileira, sinal de que a preocupação vem sendo tratada como questão de saúde pública, não só individual.





























