Economistas cortaram a previsão de crescimento da Argentina para 2026 de 3,5%, projeção de dezembro do ano passado, para 2,7%, bem abaixo dos 5% previstos no orçamento do governo de Javier Milei. O corte foi divulgado pela Bloomberg nesta quarta-feira (26) e chega junto com queda na aprovação do presidente e um problema crescente de famílias endividadas.

Segundo o levantamento, o Produto Interno Bruto argentino deve ter contração de 0,4% no segundo trimestre de 2026 na comparação trimestral. No acumulado até junho, a economia cresceu 1,9%, ante 6,1% no mesmo período do ano passado.

A economista argentina Bárbara Guerezta, da consultoria Latin Securities, resume o momento.

Desde dezembro passado até hoje, a economia argentina não cresceu em termos dessazonalizados.

Para o economista Lorenzo Sigaut Gravina, da consultoria Equilibra, o país "não anda para frente, nem para trás" em meio a fechamento de empresas e falta de empregos formais.

O presidente do Banco Central argentino, Santiago Bausili, admite que a economia avança "bem mais devagar do que gostaríamos".

A aprovação de Milei também recuou. Segundo pesquisa da AtlasIntel com a Bloomberg, feita entre 30 de julho e 3 de agosto com 1.120 entrevistados e margem de 3 pontos, 37,1% aprovam o governo e 62,4% desaprovam.

O endividamento das famílias é outro ponto de pressão. A CGT, maior central sindical do país, calcula que 20 milhões de argentinos têm algum tipo de dívida, dos quais 6 milhões estão em situação crítica.

O número preocupa economistas fora do governo. Na prática, é a fatia da população que perdeu o fôlego para pagar as contas em dia e caminha para ficar sem acesso a crédito.

A CGT e movimentos sociais marcharam ao Ministério da Economia, em Buenos Aires, em 20 de agosto. O co-secretário-geral da CGT, Cristian Jerónimo, disse que o modelo "leva à miséria" e que os protestos vão continuar.

Questionado sobre os endividados, Milei minimizou o problema. "Alguém colocou uma arma na cabeça deles para fazer isso?", respondeu, chamando a inadimplência de uma questão "entre particulares".

O que isso significa para o Brasil

A relação entre os dois governos também vive um momento de atrito. Em agosto, Milei chegou a compartilhar uma imagem feita por inteligência artificial com Lula ao lado de líderes de esquerda.

Dados de comércio exterior mostram que, nos sete primeiros meses de 2026, o Brasil teve superávit de US$ 1,22 bilhão com a Argentina. Na prática, quando a economia argentina desacelera, é a indústria automotiva brasileira que sente o solavanco primeiro.

O comércio ganhou reforço com o acordo que zera taxas para e-commerce no Mercosul. Ainda assim, os mesmos dados mostram que as exportações brasileiras à Argentina caíram 19,4% no semestre, quando a China ultrapassou o Brasil como maior fornecedor argentino.

O nome de Milei também aparece na política brasileira. O pré-candidato à Presidência Renan Santos já disse que uniria o modelo econômico argentino ao estilo de segurança do salvadorenho Bukele, resumido como "Milei na forma, Bukele no conteúdo".

O ponto em aberto

O governo argentino aposta que o ajuste fiscal ainda vai destravar investimento e emprego formal a tempo da eleição presidencial de 2027.

Os números de agosto mostram um meio-termo desconfortável. O crescimento está estagnado, a aprovação segue perto do menor nível do mandato e a inadimplência segue em alta. Falta saber se o ajuste consegue equilibrar as duas pontas antes que o desgaste político se aprofunde.