O governo dos Estados Unidos condicionou o alívio do tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros a 21 exigências, entre elas obrigar companhias aéreas do país a comprar aviões da Boeing. Para o especialista Thiago de Aragão, o pedido é desproporcional.

Sócio da consultoria Arko Advice International, Aragão avalia que a dependência comercial do Brasil em relação aos Estados Unidos é relativamente baixa, o que torna as exigências desproporcionais diante do impacto real nas exportações brasileiras.

"Ela acaba sendo desproporcional perante o impacto que é muito ruim para determinadas indústrias brasileiras, mas no todo, em relação às exportações brasileiras, representa muito pouco", afirmou Aragão, em entrevista à CNN.

Entre os 21 itens exigidos pelos EUA na primeira versão da lista, enviada em outubro, estava a obrigação de companhias aéreas brasileiras, como Latam, Azul e Gol, comprarem aeronaves da Boeing.

"Você não consegue obrigar uma empresa brasileira como a Latam, a Azul, a Gol a comprar Boeing, isso é uma decisão que essas empresas vão ter", ponderou o especialista.

Para Aragão, esse tipo de item mostra que não há, na prática, um desejo real de negociação por parte do governo americano.

A ausência de um desejo de negociação mostra que o confronto é algo que vale mais a pena para o governo americano e, de certa forma, vale mais a pena também para o governo Lula por conta das formas como os governos se capitalizaram em cima disso.

"Quem sofre acaba sendo essas empresas brasileiras e essas indústrias brasileiras", lamentou Aragão, que não vê solução para o impasse no curto ou médio prazo.

Enquanto as negociações não avançam, quem paga a conta é a indústria brasileira, presa num impasse que rende dividendos políticos aos dois governos.

Além dos pontos comerciais, a lista original trazia exigências sobre a eleição de 2026, como garantir a participação de "dissidentes políticos" na disputa. O tema já tinha virado atrito público: os EUA chegaram a exigir que o Brasil livrasse 'dissidentes políticos' na eleição.

Uma versão revisada da lista, enviada em janeiro, ficou mais curta, com 7 setores e 14 tópicos. Os pontos sobre a eleição brasileira desapareceram, mas as exigências de eliminar tarifas sobre produtos americanos, além de itens sobre comércio digital e minerais críticos, permaneceram.

O governo brasileiro também reage às pressões dos EUA. Em carta entregue a Xi Jinping nesta semana, o chanceler Celso Amorim criticou o que chamou de ingerência americana.

O que acontece agora

A negociação segue truncada e sem data para um novo encontro. Os EUA já isentaram a carne bovina brasileira de parte do tarifaço e agora estudam exigir selo de origem no produto, sinal de negociação setor a setor.