A fabricante alemã de autopeças ZF afirma estar pronta para fornecer no Brasil qualquer tecnologia usada nos carros chineses que ganham espaço no país, segundo o presidente da empresa na América do Sul, Carlos Delich. A decisão depende da demanda das montadoras.
A empresa está no país há quase 70 anos, a primeira operação que abriu fora da Alemanha. Mantém sete fábricas e um centro tecnológico em São Paulo, além de uma fábrica na Argentina.
A produção local inclui transmissões, eixos para caminhões, sistemas de freio, cintos de segurança, airbags e câmeras de assistência ao motorista, usadas como primeiro passo da condução autônoma.
"Estamos aqui há quase 70 anos e sobrevivemos a todos os governos e políticas, sempre com crescimentos sustentáveis. Então, não fazemos planos de investimentos de acordo com o governo", disse Delich, em entrevista ao jornal Valor.
Para o executivo, juros altos no Brasil podem exigir ajuste na produção. Mas o dólar valorizado abre outra frente de negócio.
"Se os juros estão altos, o crescimento não será como esperávamos; então, teremos que fazer ajustes na produção. Mas o dólar alto nos ajuda a justificar nacionalizações de componentes que pensávamos fazer em um ou dois anos", afirmou.
O que mais preocupa Delich é o avanço dos carros chineses, que já dobraram de fatia e somam 21% do mercado brasileiro. Muitos desses veículos usam componentes de fábricas da própria ZF na China.
Isso não gera demanda para a operação brasileira da empresa. O executivo chama a situação de "um desalento".
As vendas da ZF para montadoras no Brasil não crescem no ritmo do mercado interno, reflexo direto do avanço dos importados. Quanto mais carros chegam prontos de fora, menos peças essas montadoras compram de fornecedoras locais.
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Por que o governo discute os kits importados
A disputa em torno dos carros chineses passa pelos kits CKD e SKD, vendidos desmontados ou semidesmontados para montagem local — o mesmo modelo que já colocou a BYD em rota de choque com as montadoras nacionais por causa de benefícios tributários.
Em nota técnica, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) alertou que o uso desses kits em alto volume pode eliminar 69 mil empregos diretos na indústria automotiva.
O impacto chegaria a 75% da força de trabalho atual do setor, mais 227 mil postos indiretos na cadeia. A perda estimada pela entidade soma R$ 97 bilhões.
A BYD, maior fabricante chinesa a operar no país, usa o modelo SKD na fábrica de Camaçari, na Bahia, que a montadora já planeja ampliar para dobrar a capacidade de produção.
O sistema de cotas com Imposto de Importação zero para esses kits terminou em janeiro, sem sinal de renovação até aquele momento.
A ZF também aposta na nacionalização para reagir ao cenário. A empresa já produz em Limeira, no interior paulista, a unidade de controle eletrônico de freios para veículos comerciais, componente que antes vinha de fora.
O plano de investimentos da companhia na América do Sul soma US$ 1 bilhão, iniciado em 2025 e com conclusão prevista para 2030.
A disposição de abastecer carros chineses com peças locais coloca a ZF numa posição dupla. É fornecedora de quem compete com as montadoras do Brasil e candidata a vender tecnologia para essas marcas.
É esse equilíbrio entre concorrência e oportunidade que deve definir o ritmo dos próximos investimentos da empresa no país.
O que acontece agora
A ZF segue negociando com as montadoras instaladas no Brasil, inclusive as chinesas, sobre o fornecimento de novos componentes. A definição depende da demanda desses clientes, sem prazo fechado.
O governo segue sem sinalizar uma nova rodada de cotas para os kits CKD e SKD.































