O Banco Central divulgou na terça-feira (3 de novembro) o primeiro Boletim Focus desde a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e todas as projeções da economia pioraram: mais inflação, dólar mais caro, juros mais altos e crescimento menor.

A projeção para o IPCA de 2026 subiu de 5,19% para 5,22%, acima do teto da meta de 4,5%. A estimativa do dólar avançou de R$ 5,05 para R$ 5,34, e a da Selic, de 13,25% para 13,50% ao ano.

O PIB de 2026 foi a única projeção revisada para baixo: de 1,80% para 1,76%. As projeções para 2027, 2028 e 2029 também pioraram em bloco, com o IPCA de 2027 acumulando a terceira semana seguida de alta, de 4,34% para 4,76%.

Dario Durigan, ministro da Fazenda, em reunião
Foto: Supremo Tribunal Federal/flickr via Openverse

Como o questionário do Focus fecha às sextas-feiras, a edição anterior (26 de outubro) não havia captado o resultado do 2º turno, decidido em 25 de outubro, quando o Ibovespa teve a maior queda já registrada em uma reeleição.

Por que o mercado reagiu assim

Esse tipo de piora nas expectativas tem precedente. Um estudo do FGV/IBRE identifica dois episódios parecidos nas últimas duas décadas.

O primeiro foi entre 2002 e 2005, por temores sobre a política econômica do primeiro governo Lula, que não se confirmaram, mas só reancoraram as expectativas em 2005. O segundo, mais longo, começou em 2011 e só se resolveu em 2016, com troca de governo.

"Não tem nenhuma agenda colocada [...] não há agenda que justifique ao mercado ter uma posição de medo", disse o ministro Dario Durigan. Ele afirmou que fará um ajuste fiscal gradual, dentro do já prometido em lei, e negou estudo para congelar a Selic.

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Já o Itaú Unibanco elevou em 1,5 ponto sua estimativa de inflação para 2027, para 6,1%, e cortou o PIB de 2027 de 1,2% para 0,5%. A Febraban, por sua vez, só emitiu nota protocolar cumprimentando a vitória de Lula.

O que muda no seu bolso

A Selic mais alta funciona como um freio direto no crédito ao consumidor, principalmente no cartão de crédito rotativo. Pequenas e médias empresas sentem mais o aperto, porque pagam spreads bancários maiores que as grandes.

Financiamento de imóveis acima de R$ 600 mil e de veículos ficam mais caros. Já o Minha Casa Minha Vida, com taxas subsidiadas, segue praticamente imune ao movimento da Selic.

Do outro lado, quem tem dinheiro aplicado em renda fixa e Tesouro Direto ganha com os juros mais altos.

O ponto em aberto

O mercado já havia precificado parte desse cenário antes mesmo do resultado: o BTG Pactual projetava, ainda na reta final da campanha, que uma vitória de Lula poderia tirar até 17% do Ibovespa e encarecer o dólar em até 15%.

A pergunta que os dois episódios do FGV/IBRE colocam é a mesma. Quanto tempo o mercado vai levar para confiar no ajuste gradual, e o que precisa acontecer antes de o dólar e os juros subirem ainda mais?