Uma proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, para reduzir a Selic por decisão política já provoca apreensão no mercado financeiro. Não há data marcada para o tema chegar à mesa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em artigo publicado em 25 de setembro, intitulado "Eu acuso: uma proposta para eliminar as taxas de juros absurdas do Brasil", Lara Resende defende que o problema fiscal do país está nos juros, não no gasto primário.

O que a proposta muda na prática

O texto prevê fixar a taxa básica num intervalo entre a meta de inflação (3%) e a soma dessa meta com o crescimento real potencial da economia (5,5%). Hoje a Selic está em 13,75% ao ano, em dois dígitos desde 2022.

Para dar início ao novo regime, o Banco Central anunciaria a redução gradual do juro básico ao longo de cerca de 12 meses, até perto de 7,5% ao ano.

A proposta também prevê atuação no câmbio para suavizar eventual fuga de capital, usando parte dos mais de US$ 350 bilhões em reservas internacionais do país.

Lara Resende reconhece que o Brasil "gasta mal" — cita emendas parlamentares, privilégios do Judiciário e isenções fiscais. Mas sustenta que, excluído o serviço da dívida, as contas públicas estariam quase equilibradas.

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A dívida pública já batia o maior nível em quase cinco anos em maio, antes mesmo do artigo de Lara Resende.

A dívida bruta do país já passa de R$ 11 trilhões e está em 82,5% do PIB, o maior nível desde 2021. Equilibrar essa conta exigiria ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos.

Quem já reagiu à proposta

Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, Lara Resende pode se reunir com Lula na semana seguinte, em Brasília.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, que defende a autonomia do Banco Central, disse ao Valor que não há encontro agendado. Segundo ele, também não estão em avaliação propostas como tabelar juros ou gastar reservas internacionais, os dois pilares do plano de Lara Resende.

Já a deputada federal e ex-presidente do PT Gleisi Hoffmann saiu em defesa do economista. Em publicação no X, chamou o artigo de "fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira".

Lara Resende foi procurado pela Folha na tarde do domingo (1º de novembro) para comentar a proposta, mas não respondeu até a publicação da reportagem.

O ponto em aberto

A proposta reabre uma discussão que o país não trava desde o fim do tripé macroeconômico: até onde vai a autonomia do Banco Central diante da pressão política por juros mais baixos.

O desfecho vai depender de quem Lula escolher para comandar a Fazenda e o BC, e se o mercado ler essa escolha como ajuste fiscal ou como ingerência política sobre a moeda.