O presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá indicar seis dos nove diretores do Banco Central até o fim de 2027, dando ao governo maioria no Copom a partir de 2028. As vagas abertas desde dezembro de 2025 ainda dependem do Senado.

A diretoria de Organização do Sistema Financeiro, antes com Renato Dias de Brito Gomes, e a de Política Econômica, que era de Diogo Abry Guillen, ficaram vazias no fim de 2025.

A diretoria de Fiscalização, hoje com Ailton de Aquino Santos, abre em 28 de fevereiro de 2027. As duas últimas vagas do ciclo ficam disponíveis em 31 de dezembro de 2027.

A Lei Complementar 179/2021, que deu autonomia ao Banco Central, fixa mandatos de quatro anos para presidente e diretores, sem coincidir com o mandato presidencial.

A cada ano, dois nomes tomam posse de forma alternada. O processo de indicação de 2026 já foi adiado uma vez, depois do fracasso da indicação de Jorge Messias ao STF.

Três dos atuais diretores seguem no cargo depois de 2027. São eles: Gilneu Vivan, na Regulação, e Izabela Correa, na Cidadania e Conduta. O presidente Gabriel Galípolo também permanece, com mandato até 31 de dezembro de 2028.

O que muda na composição do Copom

O Copom tem nove integrantes, e seis serão indicados por Lula até o fim de 2027. Isso significa que, a partir de 2028, o grupo escolhido pelo atual governo poderá formar maioria nas decisões sobre a taxa básica de juros, a Selic.

O calendário não muda sozinho a política de juros. Ele só define quem senta à mesa. O Copom se reúne na terça-feira (3 de novembro) e na quarta-feira (4 de novembro) para decidir a Selic, hoje em 13,75% ao ano.

Publicidade

O mercado está dividido entre manter a taxa e cortar 0,25 ponto; parte dos analistas já aposta na manutenção dos juros. O resultado sai às 18h30 da quarta-feira, e a última reunião do Copom em 2026 acontece nos dias 8 e 9 de dezembro.

A Selic está no mesmo patamar desde setembro. O nível atual vem de um ciclo de cortes que devolveu a taxa ao mesmo ponto em que estava quando Lula tomou posse.

A meta de inflação do Copom é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Analistas apontam que a faixa já foi estourada neste ano, como mostrou a inflação de setembro, que furou o teto da meta.

O que dizem o mercado e o governo

Para o mercado financeiro, o risco é de aparelhamento do Banco Central. Analistas temem nomes mais alinhados ao desejo do governo de reduzir os juros com mais rapidez, o que pressionaria a meta de inflação de 3%.

O ex-diretor do BC e professor da FGV Sérgio Werlang diz que Lula sabe que inflação alta significa "falta de popularidade na veia" e deve escolher nomes de perfil moderadamente conservador, comprometidos com a meta.

Já o economista Gustavo Loyola, ex-presidente do BC e sócio da Tendências Consultoria, vê risco de pressão sobre a instituição se o governo não resolver os problemas fiscais e perder popularidade.

No campo governista, a deputada Gleisi Hoffmann (PT) critica o mercado financeiro e defende mais diálogo de Lula sobre os juros, reação ao coro de alertas sobre a autonomia do BC.

A disputa é, no fundo, sobre quem vai decidir o ritmo de queda dos juros nos próximos anos. O primeiro teste já tem data marcada. É a decisão do Copom, na quarta-feira (4 de novembro).

Em maio, o próprio Galípolo chegou a comentar a possibilidade de indicar duas mulheres ao colegiado, sinal de que o debate interno já estava em curso.

O que acontece agora

A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado ainda precisa aprovar os nomes que Lula indicar antes da posse de qualquer novo diretor. A decisão do Copom sobre a Selic sai na quarta-feira (4 de novembro), às 18h30.

Até lá, os nomes dos próximos diretores do BC seguem indefinidos.