Diego Esquivel triplicou o salário ao deixar Buenos Aires pela Patagônia argentina, polo do boom do petróleo sob o governo de Javier Milei. A inflação do país caiu de quase 300% para 30% ao ano, mas o crescimento não chega a todas as regiões.

O fenômeno interessa diretamente ao Brasil. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do país, e o comércio entre os dois somou US$ 13,75 bilhões só no primeiro semestre de 2026, segundo a Gazeta do Povo.

"Minha situação mudou completamente em apenas seis meses", contou Esquivel, que ganhava US$ 900 (R$ 4.837) por mês numa empresa de serviços de saúde em Buenos Aires antes de se mudar.

"Em Buenos Aires, eu não conseguia pagar as contas. Essa é a diferença", completou. Hoje ele administra moradias para trabalhadores do polo petrolífero que dobrou a produção argentina.

Os números oficiais sustentam o otimismo do governo: a pobreza está no menor nível em uma década, e as agências de classificação elevaram a nota da dívida soberana argentina.

O programa de incentivo a investimentos já aprovou 27 projetos, que somam US$ 76 bilhões em aportes previstos, com outros US$ 133 bilhões em propostas em análise.

Os Estados Unidos de Donald Trump reforçaram o apoio com uma linha de crédito de US$ 20 bilhões no ano passado.

Publicidade

O outro lado do ajuste

O boom na Patagônia convive com perda de emprego em outras regiões. A Argentina fechou 32 mil empresas em quase três anos de governo Milei, e 245 mil postos formais de trabalho foram encerrados no mesmo período.

O desemprego argentino subiu para 7,9% no primeiro semestre de 2026, 0,3 ponto acima do mesmo período do ano anterior.

O ajuste também atinge o funcionalismo. Desde dezembro de 2023, o governo suprimiu 77,5 mil postos no setor público, e um novo plano de demissão voluntária, lançado em outubro, pode chegar a 21 mil servidores.

O mesmo ajuste que seduz investidores corta no emprego de quem vive do Estado.

"Quem aderir ao plano de demissão não poderá voltar a ocupar emprego no Estado pelos próximos oito anos, para evitar uma porta giratória", disse o ministro argentino da Desregulação, Federico Sturzenegger.

O secretário-geral da Associação dos Trabalhadores do Estado, Rodolfo Aguiar, denunciou pressão do governo sobre os servidores: "Ou você assina os papéis da aposentadoria ou eu te coloco em licença e depois te demito".

Por que o Brasil acompanha a disputa

O modelo econômico de Milei também disputa espaço simbólico na política brasileira. Setores da direita hoje associados a Flávio Bolsonaro citam o ajuste argentino como referência de política fiscal, enquanto o governo brasileiro evita qualquer aproximação pública com o presidente argentino.

A economia argentina, porém, mostrou sinais mistos nos últimos meses. Apesar do crescimento acumulado em dois anos, o país entrou em recessão técnica, segundo o índice oficial de atividade mais recente.

A próxima eleição presidencial argentina está a cerca de um ano de distância, e Milei já mira a reeleição. O resultado desse equilíbrio, entre o boom da Patagônia e o ajuste que fecha empresas, deve pesar na disputa.