O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça anunciou nesta quinta-feira (3) que vai deixar a sociedade do Instituto Iter, entidade que ele fundou e que faturou pelo menos R$ 10,8 milhões em 55 contratos com o poder público, a maioria deles fechada sem licitação.

Segundo levantamento da revista Fórum, 98,2% dos 55 contratos foram fechados sem processo licitatório: 42 por inexigibilidade, 3 por dispensa e 9 por contratação direta. São Paulo concentra 26 contratos e R$ 4,52 milhões, seguido pelo Amazonas (R$ 2,10 milhões) e pelo Distrito Federal (R$ 1,73 milhão), em um total de 14 estados atendidos.

Mendonça é o relator, no STF, do inquérito sobre o Banco Master e sobre o financiamento do filme "Dark Horse". Ele recebeu o banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Master, em março de 2025, na sede do Iter em São Paulo. O encontro não constava da agenda oficial do ministro e veio a público por mensagens e áudios encontrados pela Polícia Federal.

Opositores do ministro apontam conflito de interesse. O relator do inquérito sobre o Master é sócio de um instituto contratado por uma das vítimas da quebra do banco. Deputados já haviam pedido à PGR a suspeição do ministro no caso Master por causa do encontro com Vorcaro.

O Iter fechou contrato de R$ 1,2 milhão com o Cioeste, consórcio de municípios liderado pelo prefeito de São Roque (SP), Guto Issa (PSD). O fundo de previdência da cidade, o São Roque Prev, tinha aplicado R$ 93 milhões em letras financeiras do Master (título sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC) e amargou prejuízo quando o Banco Central liquidou a instituição, em setembro de 2025.

Em setembro de 2025, o Iter também fechou contrato de R$ 380 mil com a Prefeitura de São Paulo, do prefeito Ricardo Nunes (MDB), para dois cursos de capacitação de servidores. Mendonça e a esposa detêm 77,5% do Iter, criado em 2024 para oferecer cursos e formação jurídica.

"O ministro jamais auferiu lucro do instituto."

Afirma a nota divulgada por Mendonça nesta quinta, na qual ele também diz que a saída ocorre "sem qualquer contrapartida financeira" e que vai seguir "prestando serviços exclusivamente acadêmicos, na qualidade de professor".

O nome de Mendonça já era alvo de pressão dentro do próprio STF. Nesta semana, o presidente da Corte, Luiz Fachin, prometeu medidas cabíveis depois que vieram a público mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, e Moraes disse que aceita um confronto em plenário sobre o caso.

O que acontece agora

O Iter ainda não informou prazo para concluir a transferência das cotas de Mendonça e da esposa nem para formalizar a conversão em entidade sem fins lucrativos. A PGR não informou se vai incorporar o novo episódio ao pedido de suspeição já apresentado por deputados, e o STF não marcou data para julgar a questão.