Os ministros das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, disseram nesta segunda-feira (31) ao representante de comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, que o tarifaço de até 37,5% sobre produtos brasileiros é discriminatório. A reunião virtual não resultou em acordo.

Segundo nota conjunta do Itamaraty e do MDIC, as justificativas dos Estados Unidos na investigação da Seção 301 não correspondem às práticas reais do país. O governo brasileiro classifica a medida como incompatível com as regras multilaterais de comércio.

A sobretaxa soma duas parcelas: 25% com base na Seção 301, motivada pela investigação sobre o sistema de pagamentos Pix e o acesso ao mercado de etanol, e mais 12,5% sobre produtos como arroz, mel e etanol, sob acusação de trabalho forçado.

Juntas, elas colocaram o Brasil na segunda posição entre os países mais taxados pelos Estados Unidos, atrás só da China. Antes do tarifaço, o país ocupava a 13ª colocação no ranking.

A reunião desta segunda-feira era aguardada desde que Brasil e EUA marcaram a data em 26 de agosto. O encontro nasceu de uma ligação de 1h20 entre Lula e Trump em 21 de agosto, na tentativa de ampliar a lista de exceções à sobretaxa.

A indústria acompanha de perto a retomada das negociações sobre o tarifaço. Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), resume assim a preocupação do setor:

estamos falando de cadeias produtivas altamente integradas, nas quais muitos produtos brasileiros são essenciais para a indústria norte-americana

O que muda para o exportador brasileiro

Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a tarifa pode atingir cerca de 4 mil produtos brasileiros e colocar em risco US$ 14,9 bilhões em exportações aos Estados Unidos. As vendas ao mercado americano já haviam caído 13% (US$ 2,6 bilhões) na comparação com o ano passado.

Nem toda a pauta de exportação foi afetada: uma lista de cerca de 2.100 itens ficou fora da sobretaxa, entre eles carne, café e laranja — produtos que respondem por parcela relevante do que o Brasil vende aos americanos.

Na semana passada, os Estados Unidos também liberaram uma cota extra de carne bovina sem tarifa, que passa a valer nesta terça-feira (1º).

O que acontece agora

Os dois países vão realizar reuniões técnicas nas próximas semanas, virtuais ou presenciais, antes de um novo encontro ministerial, ainda sem data marcada. O objetivo declarado pelo Brasil é fechar um acordo equilibrado e mutuamente benéfico, com respeito à soberania nacional sobre a política comercial do país.