O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, têm reunião virtual marcada para a próxima segunda-feira (31), às 14h30. É o primeiro encontro com data confirmada desde que Lula e Trump concordaram, por telefone, em retomar as negociações sobre o tarifaço.

A pauta é a contestação brasileira aos argumentos usados pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) para justificar a sobretaxa. Segundo o governo, a reunião trata diretamente de US$ 6,6 bilhões em exportações afetadas pela tarifa.

Os Estados Unidos começaram a cobrar 25% sobre produtos brasileiros em 22 de julho, com base na Seção 301 do comércio americano.

Dias depois, o governo Trump somou uma penalidade extra de 12,5%, motivada por uma investigação sobre suposto uso de trabalho forçado no Brasil. O Brasil é hoje o segundo país mais tarifado pelos Estados Unidos, atrás apenas da China.

A reunião de segunda-feira é desdobramento direto de uma videoconferência que vinha sendo negociada desde a semana passada, quando Greer procurou Márcio Elias Rosa horas depois de uma ligação entre Lula e Trump.

A conversa entre os presidentes, na sexta-feira (21), durou 1 hora e 20 minutos e teve tom, segundo o Planalto, amistoso e cordial.

Na ligação, Lula classificou como infundadas as justificativas dos Estados Unidos para a tarifa, entre elas desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, uso do Pix, etanol e trabalho forçado. O presidente disse que as tarifas afetam "ambos os países".

Quem sente a tarifa no Brasil

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a tarifa atinge cerca de US$ 11 bilhões em exportações brasileiras, o equivalente a 26,2% do que o país vende aos americanos, numa lista de aproximadamente 4 mil produtos.

Madeira, minerais não metálicos, produtos químicos, etanol, açúcar orgânico, máquinas agrícolas, papel e vestuário estão entre os setores mais afetados, segundo a entidade.

Isso corrói ainda mais a competitividade da indústria brasileira. Não podemos poupar esforços para reverter essa lógica e retomar a relação que Brasil e Estados Unidos construíram.

A frase é do presidente da CNI, Ricardo Alban. Já a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) atribui parte da responsabilidade ao próprio governo brasileiro.

A entidade classificou como "ruídos diplomáticos desnecessários" o desgaste que, na sua leitura, ajudou a azedar uma relação construída ao longo de mais de 200 anos entre os dois países.

O vice-presidente Geraldo Alckmin rebateu esse tipo de leitura ao comentar a tarifa de 50% aplicada em julho. Ele chamou a medida de "perde-perde" e insistiu que a mesa de negociação segue aberta, aposta que agora vai ser testada na reunião de segunda.

O que acontece agora

Se o histórico servir de parâmetro, o encontro de segunda não deve resolver a disputa de uma vez. Em novembro de 2025, uma rodada entre Lula e o governo americano levou Washington a retirar uma sobretaxa de 40% sobre itens como café, carnes e frutas.

As tensões voltaram neste ano, com a investigação da Seção 301 e a entrada do Brasil na lista de países sob suspeita de trabalho forçado.

Enquanto a negociação corre, o governo já prorrogou por um ano o prazo de drawback para exportadores afetados pelo tarifaço, medida publicada nesta terça-feira (25). O resultado de segunda deve dizer se o próximo alívio vem por acordo ou por mais medidas internas como essa.