A China ultrapassou o Brasil como principal fornecedor da Argentina pela primeira vez, segundo dados do primeiro semestre de 2026, num movimento que atinge sobretudo o setor automotivo. As importações argentinas de produtos chineses somaram US$ 7,98 bilhões, contra US$ 7,35 bilhões vindos do Brasil.

No mesmo período, as exportações brasileiras para o país vizinho caíram 19,4%, de US$ 9,1 bilhões para US$ 7,4 bilhões. A fatia do Brasil no mercado importador argentino recuou de 5,5% para 4%.

O setor automotivo puxou a queda: vendas de veículos de passageiros para a Argentina caíram 28,2%, e as de autopeças e acessórios, 28,7%. Do lado chinês, as compras argentinas de autopeças subiram 80,9% em 2025.

O mesmo movimento dentro do Brasil

A perda de espaço não fica só na Argentina. A Anfavea, associação das montadoras no Brasil, revisou a projeção de exportações de 2026: em janeiro esperava alta de 1,5%, agora projeta queda de 12,8%.

A entidade cita a menor demanda argentina e a concorrência de carros chineses e mexicanos. Ao mesmo tempo, dentro do próprio mercado brasileiro, o número de carros chineses vendidos dobrou em um ano, de 70 mil para 140 mil unidades.

O setor automotivo brasileiro voltou a registrar déficit na balança comercial depois de vários anos. O país importou 280,6 mil veículos, cerca de 63 mil a mais do que exportou.

A Anfavea critica publicamente os incentivos fiscais dados a produtos importados, tema que já rendeu atrito entre montadoras instaladas no Brasil e fabricantes chinesas que usam a isenção.

Por que a China consegue crescer tão rápido

A resposta está no mercado doméstico chinês, que caiu 20,4% no primeiro semestre. As montadoras da China compensam a queda em casa exportando mais.

As vendas ao exterior cresceram 70,6%, somando 4,28 milhões de veículos no período. A BYD ilustra o ritmo: vendeu mais de 8 mil veículos em seis meses de operação na Argentina e já é a 8ª montadora mais vendida no país.

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Mais marcas chinesas chegam ao Brasil no mesmo movimento. Para o economista argentino Roberto Luis Troster, radicado há 50 anos no Brasil, o desafio central da região é aumentar a competitividade da própria indústria automotiva.

O ponto em aberto

O Brasil perde espaço para a China como fornecedor da Argentina no mesmo momento em que negocia, ao lado do Mercosul, um acordo comercial com Pequim. Lula e o presidente chinês Xi Jinping trataram do tema numa conversa em julho.

O bloco já promulgou parte do acordo digital do Mercosul com a China. Fica a pergunta para o restante da negociação: um acordo comercial mais aberto tende a aliviar ou aprofundar a pressão que já tira mercado do Brasil, tanto na Argentina quanto em casa?