O Grupo Casas Bahia protocolou neste domingo (16) um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo. A dívida soma R$ 17,3 bilhões: R$ 16,4 bilhões com credores comuns, R$ 754 milhões em dívidas trabalhistas e R$ 154 milhões com micro e pequenas empresas. É a segunda vez que a varejista recorre à Justiça em dois anos.

Em comunicado ao mercado, a empresa atribuiu o pedido a juros altos, restrição de crédito, aumento dos custos financeiros e pressão sobre consumo e capital de giro. A companhia também citou a "não materialização de alternativas de liquidez" que vinha buscando nos últimos meses.

"Ajuizamento do pedido de recuperação judicial mostra-se necessário e configura mais um passo na direção da reestruturação financeira da Companhia", diz o comunicado.

O processo abrange a holding e nove empresas do grupo, entre elas a Cnova, a Bartira e a Casas Bahia Tecnologia, além de companhias de logística. O Conselho de Administração aprovou o pedido com apoio do acionista controlador.

A companhia fechou o segundo trimestre com prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões e patrimônio líquido negativo de cerca de R$ 8,1 bilhões.

Neste mês, fechou 298 lojas consideradas pouco rentáveis e demitiu cerca de 1,9 mil funcionários, número que pode chegar a três mil, segundo estimativas do setor.

Por que é a segunda recuperação em dois anos

Em 2024, a Casas Bahia já havia feito uma recuperação extrajudicial, renegociando cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas com bancos. O pedido atual integra a segunda fase do Plano de Transformação, iniciado em 2023.

O plano de digitalização da empresa começou quando a Selic estava na mínima histórica de 2% ao ano, entre o fim de 2020 e o início de 2021.

A alta dos juros até o atual patamar de 15% ao ano desorganizou a estrutura financeira da companhia. A varejista já soma oito trimestres seguidos de prejuízo.

Como o mercado financeiro reagiu

As ações da Casas Bahia (BHIA3) acumulam queda de 78,71% no ano até esta segunda-feira (17). O papel fechou a última sexta-feira (14) cotado a R$ 0,66, com valor de mercado em torno de R$ 670 milhões.

Para analistas ouvidos pelo mercado, a recuperação judicial reduz o risco imediato de uma ruptura financeira ao abrir um ambiente organizado de negociação com credores. O benefício não resolve, porém, os problemas operacionais que vêm pressionando os resultados.

O Morgan Stanley mantém recomendação "underweight" para o papel: os números do trimestre vieram de 15% a 18% abaixo da projeção de Ebitda do banco. A XP Investimentos classifica a situação financeira da empresa como "restrita" e colocou recomendação e preço-alvo em revisão.

O Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região (Secor) prepara uma ação coletiva contra as demissões de agosto, pedindo reintegração e indenização por dano moral. A entidade critica a falta de diálogo sobre verbas rescisórias, FGTS e seguro-desemprego.

"Os trabalhadores do comércio não podem arcar com os prejuízos decorrentes de decisões empresariais tomadas sem o devido diálogo e transparência", disse Luciano Pereira Leite, presidente do Secor.

O que muda desta vez

A recuperação extrajudicial de 2024 não impediu a companhia de acumular mais quatro trimestres seguidos de prejuízo. A empresa não detalhou nesta rodada até quando pretende concluir a negociação com os credores nem que garantias oferece além do plano já em curso.

Fica em aberto se o novo processo consegue o que o anterior não conseguiu: interromper a sequência de resultados negativos.