O Banco Central avalia interligar o Pix a sistemas de pagamento instantâneo de outros países, segundo o segundo Relatório de Gestão do Pix, divulgado nesta segunda-feira (10). A medida é estudada em meio à tarifa adicional de 25% que o governo dos Estados Unidos impôs a produtos brasileiros, citando o Pix como prática comercial desleal.

Segundo o relatório, que cobre o período de 2023 a 2025, o BC discute tanto interligações bilaterais com outros países quanto a participação em hubs multilaterais de pagamento instantâneo, o que permitiria remessas internacionais e compras transfronteiriças com liquidação em poucos segundos, em moeda local.

O documento cita como benefícios da interligação a redução de tarifas, o ganho de velocidade, a ampliação do acesso e mais transparência nas transações entre países.

"Estão em discussão tanto interligações bilaterais quanto a participação em hubs multilaterais. Essas interligações permitiriam a realização de remessas internacionais", registra o relatório do Banco Central.

O que mudou desde o último relatório

O primeiro Relatório de Gestão do Pix, de 2023, tratava a integração internacional apenas como possibilidade futura, sem detalhar caminhos.

Na edição atual, o Banco Central já descreve os dois modelos em avaliação (acordos bilaterais e hubs multilaterais). O avanço é associado à necessidade de resposta à pressão dos EUA.

A tarifa de 25% resulta de investigação aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) em julho de 2025, com base na Section 301 da lei de comércio americana.

Segundo o USTR, o Brasil favorece um sistema de pagamento desenvolvido pelo próprio governo. Isso prejudicaria a competitividade de empresas americanas no comércio digital, alega o órgão.

O governo brasileiro respondeu formalmente aos EUA que o Pix busca segurança do sistema financeiro nacional e não discrimina empresas estrangeiras. Brasília contestou a base legal e factual das alegações da administração Trump.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já havia rebatido a acusação em coletiva de imprensa em julho.

"Os argumentos contra o Pix são uma desculpa para criar uma lógica para tarifas", disse Galípolo na ocasião.

Ele também comparou a lógica usada pelos EUA à de outro setor da economia brasileira.

"É como dizer que o saneamento básico prejudicou a receita do caminhão-pipa", afirmou o presidente do BC.

Galípolo classificou o Pix como um sistema gratuito, seguro e instantâneo, que ampliou a inclusão financeira no país.

O relatório reforça a dimensão do sistema hoje. O Pix fechou 2025 com 926 instituições participantes, alta de 5,6% sobre 2024, e um volume financeiro que passou de R$ 35 trilhões, crescimento de 33,8%.

O meio de pagamento já responde por 24,9% das transações registradas no país.

Além da frente internacional, o documento do BC também trata da integração do Pix ao mercado de crédito e ao mecanismo de split de pagamento previsto pela reforma tributária.

Quando as interligações devem sair do papel

O relatório detalha os dois modelos em estudo, mas não traz cronograma para a assinatura de acordos bilaterais ou a entrada efetiva do Pix em algum hub multilateral.

A queixa original dos EUA mira o fato de o sistema ser operado pelo governo brasileiro. A interligação internacional, por si só, não resolve esse ponto.