O mercado brasileiro de canetas injetáveis para emagrecimento e controle do diabetes movimentou R$ 13,3 bilhões nas farmácias do país entre maio de 2025 e maio de 2026, segundo levantamento do setor farmacêutico com base em dados de vendas no varejo. O valor consolida a classe dos análogos de GLP-1 como um dos segmentos de maior crescimento da saúde no Brasil — e como um fenômeno de consumo que já pressiona preços, estoques e até a segurança das drogarias.

O salto tem um protagonista claro. O Mounjaro (tirzepatida), da farmacêutica americana Eli Lilly, chegou ao Brasil em maio de 2025 e fechou o período com R$ 8,5 bilhões em vendas, mais do que a soma de todos os concorrentes. Em unidades, o avanço foi de 208,5 mil caixas até maio de 2025 para 4,52 milhões um ano depois — crescimento superior a 2.000%. Na sequência aparecem o Wegovy, com R$ 3,74 bilhões, e o Ozempic, com R$ 1,1 bilhão, ambos da dinamarquesa Novo Nordisk.

Fim da patente abre corrida por versões mais baratas

A virada de mercado tem data marcada: a patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, expirou no Brasil em 20 de março de 2026. Desde então, cerca de 17 laboratórios protocolaram pedidos de registro de versões similares e genéricas na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), parte deles já em análise técnica e parte na fila de avaliação.

A EMS, maior farmacêutica de capital nacional, é a mais adiantada nessa disputa. A companhia investiu mais de R$ 1 bilhão em uma fábrica de peptídeos com capacidade projetada para dezenas de milhões de canetas por ano e já produz localmente versões de liraglutida, molécula mais antiga da mesma família. A expectativa da indústria é que a semaglutida nacional chegue às prateleiras com preço perto da metade do praticado hoje. A Novo Nordisk, por sua vez, fechou parceria com a brasileira Eurofarma para distribuir uma segunda marca do próprio medicamento, movimento típico de defesa de participação de mercado às vésperas da entrada de concorrentes.

O Mounjaro segue em situação diferente: a tirzepatida tem proteção patentária mais longa e não deve enfrentar cópias no curto prazo, o que tende a manter o preço do líder de vendas nos patamares atuais, entre cerca de R$ 1.400 e R$ 3.000 por caixa, conforme a dosagem.

Preço alto empurra consumidor para atalhos de risco

A conta pesada explica efeitos colaterais fora da bula. A diferença de preço em relação a países vizinhos — no Paraguai, a mesma medicação é vendida por valores muito inferiores — estimulou a importação informal por brasileiros, prática que escapa do controle sanitário e não garante a cadeia de refrigeração exigida pelo produto. No varejo formal, redes de drogarias contabilizaram milhares de furtos de canetas emagrecedoras ao longo de 2025, com prejuízo estimado em dezenas de milhões de reais, o que levou boa parte das lojas a manter os produtos em áreas trancadas.

Projeções de bancos e consultorias apontam que o mercado brasileiro de GLP-1 pode dobrar em 2026, para cerca de R$ 20 bilhões, e superar R$ 50 bilhões até 2030, puxado justamente pela entrada dos genéricos e pela ampliação do acesso. Especialistas em endocrinologia, no entanto, reforçam que a obesidade é doença crônica e multifatorial: o uso dos medicamentos exige prescrição, acompanhamento profissional e mudança de hábitos, sob risco de reganho de peso após a interrupção do tratamento.